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Daniel Maia | ilustração: Pedro Zamith
Ano de descalabro e descontentamento, em que o mercado português tal como o tínhamos deu um abrupto tombo por volta do último trimestre, 2005 foi também um ano de paradoxos. Se podemos dizer ter havido um forte desinvestimento em edições nacionais, com diversos bons projectos a não conseguirem chegar aos escaparates, é também nítida a miríade de pequenas iniciativas por parte de grupos privados que agora aparecem, orientadas em especial para a edição de novos autores, que aos poucos começam a fazer-se notar. O cosmos tem destas coisas... Foi preciso o mercado começar a dar o “canto do cisne” para aparecer entre nós uma nova geração de artistas com potencial para o refrescar.
Antes de seguirmos para casos concretos, um breve olhar a dados estatísticos: Já um degrau abaixo de 2003, 2004 ficou-se pelo número (aproximado) de 50 autores publicados, não devido a álbuns lançados mas por força dos títulos colectivos que deram à costa. Pondo de parte fanzines e publicações não-especializadas que tais, as edições nacionais contam-se agora pela mísera trintena; uma forte quebra se considerarmos que parte delas nem são estritamente volumes (a colecção BD Jazz, os livros da Lx Comics e Colecção Toupeira, etc.) e que o número de autores nativos editados é salvo apenas por novas antológias, ficando todavia o valor abaixo do atingido em 2004.
Posto isto, a tendência que mais fez vibrar 2005 – e o único motivo porque o ano fechou com nota positiva – foi a descoberta de diversos núcleos de BD, cada qual com motivação e recursos próprios para dinamizar o sector e, melhor ainda, com autores por dar conhecer:
Se por um lado há muito que é conhecido o grupo de artistas do Atelier Toupeira (Beja), era-nos porém desconhecido quão hábeis eram alguns destes, aspecto que o FIBD/Beja veio prontamente corrigir. No seio do grupo, quem mais atenção chamou foi definitivamente Susa Monteiro que, como autora-revelação do ano, estendeu o ar da sua graça a outras iniciativas, tendo rapidamente sido pescada para projectos que prometem ofuscar 2006.
Criado sob os mesmos moldes e usufruindo de iguais oportunidades, os desenhadores da associação AJCOI BD pecam apenas pela sua inexperiência nestas lides. Todavia, com o festival de BD que promovem na sua cidade (Pinhal Novo), os contratos de trabalho firmados com o edil e a revista Sketchbook que acabaram de lançar, este grupo dispõe de tudo o que precisa para aos poucos se ir afirmando no panorama bedéfilo.
Outro, quiçá mais auspicioso grupo por destacar é o Núcleo BD da FBAUL. Como um polvo com os tentáculos ligados a diversas entidades, estúdios e associações académicas, este núcleo chegou para agitar o meio e desafiar à produção, com promessas de editar os melhores resultados na sua revista Blazt, um periódico criado com os olhos na Europa. Como projecto com fortes garantias de projecção, os dois números da Blazt ajudaram a destacar o versátil Ricardo Cabral, sendo igualmente promissor o jovem João Martins, vencedor do 1º prémio do concurso de BD do FIBD/Amadora.
De todos, o conjunto formado pela Citen é porventura aquele que esgrimiu maior persuasão indie. Activo na divulgação das suas acções, este curso propiciou obras de cariz laboratorial com alguns bons resultados gráficos a surpreender, em especial numa formação essencialmente virada para a vertente narrativa. O seu volume Memória 10 ficou, pela variedade de propostas autorais, como uma das melhores surpresas do ano. A associação de Richard Câmara ao projecto, bem como a sua distinção no festival fumetto, continua a fazer dele um dos mais apeteciveis autores portugueses do momento.
Uns mais capazes que outros, cada um destes núcleos dispõem de valiosos meios institucionais (raros de conseguir na presente crise) para dirigir à actividade bedéfila e assim chamar a atenção dos leitores e dos críticos do sector; para além possuirem estúdios onde operar e publicações que objectivem a sua produção. Com toda esta benesse há aqui uma responsabilidade de se meter mãos à obra, pois destes vai depender a excitação possível de trazer à nossa BD em 2006.
Fora estes quatro principais grupos, há-que mencionar de seguida a total mudança na maré que se observou nos concursos de BD no que toca à nova geração de talentos. Após dois ou três anos de permanente desgosto perante um imenso deserto de ideias nos concursos tidos por esse país fora (dos quais o promovido pelo festival da Amadora é um bom barómetro), o FIBD/ Amadora 2005 – a julgar pela quantidade e qualidade das propostas – catalizou a dita mudança. Nem preciso ficar-me pelo grupo de premiados, cada qual igual a si mesmo, como se os seus trabalhos fossem um copo de água fresca; inesperadamente por todo o concurso, umas mais concretizadas que outras, houveram diversas propostas a demonstrar potencial criativo em franco desenvolvimento.
Perante esta multiplicidade de abordagens é contudo notória a expressiva influência que os anos recentes de exposição à cultura dos mangá/anime, bem como o movimento de ilustração característico da comunidade nacional tiveram junto dos autores. Foram estas, mais do que qualquer outra, as duas tendências que mais alto falaram nos traços dos novos autores, e aquelas que certamente mais verve prometem cunhar na Nona arte portuguesa.
Passando para os meandros da edição regular, foi José Carlos Fernandes quem uma vez mais reinou no mercado. Com dois álbuns editados, entre o esperado quinto volume d´A Pior Banda do Mundo e o peculiar A Última Obra-prima de Aaron Slobodj, o prolifero autor esteve ainda em boa forma no seriado Agência de Viagens Lemming, publicado durante o verão no Diário de Noticias, tendo também integrado a colecção Série Ouro – feito de respeito para um autor português, por figurar entre os mais populares clássicos da BD mundial.
Curiosamente, as duas outras facções de maior protagonismo no mercado são em tudo antagónicas! Por um lado, temos a subsistente narrativa histórica, com os créditos a irem para José Garcês (também em foco numa mostra individual do CNBDI) com três álbuns editados, José Ruy e Jorge Magalhães. No outro canto do ringue, temos a vanguarda estética representada por Tiago Manuel, com os seus trabalhos a morder as fronteiras da BD, junto com André Lemos e João Cabaço, em artbooks da Mmmmnnnrrg e Chili com Carne.
São também cada vez mais frequentes as menções a andanças de autores portugueses em mercados estrangeiros. Embora estejamos longe de um êxodo em massa para mais verdes paragens, esta saída profissional apresenta-se como a principal bóia de salvação para quem procura fazer carreira na BD.
Enquanto que em França, num ano de poucas ocorrências, o destaque vai para a tomada de assalto por Pedro Zamith, Pedro Nora e outros das edições BD Jazz (difundidas por cá pelo Diário de Noticias), do outro lado do Atlântico, na indústria de comics, os casos também se acentuam. De esporádicas participações em revistas até desenho em antológias, aqui e ali tem-se notado um contínuo desmoronar da muralha a transpor, com o melhor exemplo disso a continuar a ser Eliseu Gouveia. Voltando a associar-se a editoras independentes para uma apreciável fornada de títulos, o autor destaca-se em The Return of the Mummy, que o juntou ao escritor com o qual se havia estreado em 2004, com Cloudburst (Devir). Ainda uma chamada de atenção para o projecto Shiki de João Lemos e C.B. Cebulski (ex-editor da Marvel) que, já tendo sido anunciado, promete dar que falar lá para Abril.
Aproveitando para mudar de registo, há a assinalar excelentes presenças no que respeita a autores estrangeiros. Embora as fenomenais propostas de Esad Ribic, George Pratt, Gibrat, Civiello, Frezatto, Hermann, Bobillo, Marini, e Victoria Francès tenham surpreendido os leitores, penso que o ano foi principalmente marcado pela BD pura e crua, a preto-e-branco. Frank Miller dominou, e o público pôde ser convenientemente apresentado a mestres do calibre de Alberto Breccia (com dois grafismo diferentes!), Guido Crepax, e os sempre apreciados Eduardo Risso e Jordi Bernet; havendo ainda espaço para as apostas invulgares dos estilos de Christopher Webster, Richard Corben, Jirô Taniguchi e Roman Dirge.
Por fim, num ano em que se celebrou – com várias mostras cá e no estrangeiro – o centenário do falecimento de Rafael Bordalo Pinheiro, reconhecido como o precursor da banda desenhada em Portugal, houve ainda tempo para comemorar os 30 anos de carreira de José Abrantes. Há três décadas a trabalhar no ramo da ilustração e BD infanto-juvenil, também ele esteve em foco com uma retrospectiva sua no FIBD/Amadora, junto com o autor em destaque deste ano, Ricardo Ferrand, numa merecida e variada mostra.
Em nota de despedida, fica o reconhecimento a autores desaparecidos este ano: Enquanto o mundo dizia adeus ao grande Will Eisner (e continuará a dizê-lo por muitos mais anos…), criador do formato novela gráfica e um dos expoentes máximos da BD mundial e da sua linguagem técnica, nós dissemo-lo ao não menos reputado Eduardo Teixeira Coelho, o mais popular e distinguido desenhador português de sempre. Partiram ainda Nuno Simões Nunes, autor em proeminencia nos anos 50 e 60, com participações em Cavaleiro Andante, e Gonçalo Garcia, humorista de SAD – Rent-a-Player.
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