2003
Introdução

Edição
João Miguel Tavares

Autores
Paulo Patrício

Festivais
João Miguel Lameiras

Fanzines
Marcos Farrajota

Investigação
Adalberto barreto

Movimentos
Geraldes Lino

 

 


2000, 2001, 2002, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009

 


 
 
 
 

 
 
 

Pedro Moura | ilustração: José da Fonseca

Já à partida, admito que é forçoso a uma visão metacrítica encerrada num espaço destes ser algo desequilibrada em relação ao que se propõem pensar. O facto das recensões e dos artigos, em secções regulares ou não deste ou daquele órgão de comunicação, desta ou daquela pessoa mais ou menos dedicada ao campo, serem da natureza que são, está intimamente associado a uma série de factores incontornáveis, estruturalmente moldadores desses mesmos textos: o facto da maior parte dos regulares trabalharem para jornais, com espaços relativamente pequenos, impede que se desenvolva uma verdadeira, balizada e multímoda crítica. Chris Baldick, mesmo no seu Concise Dictionary of Literary Terms (Oxford University Press: Oxford/New York 1990) indica que a crítica (criticism) é um balanço entre juízo (judgement) e análise (analysis). O primeiro está obviamente associado a uma espécie de voto, de valorização perante inclinações pessoais, mas a segunda é um método de leitura e interpretação da parte do leitor eficaz que o crítico deve ser. Ora, na ausência de análise, penso que não se pode falar em termos globais e concretos, salvo excepções pontuais, em crítica propriamente dita sobre banda desenhada em Portugal. O mesmo, diga-se, aplicar-se-á a outras expressões artísticas. À crítica literária, encontra-se bem estruturada na Colóquio/Letras, em publicações académicas, e não nos suplementos de Domingo dos jornais.

Não quero com isto dizer que o que se escreve é mau ou inconsequente. Baldick diz ainda que a crítica moderna se divide sobretudo em dois campos: o do mercado, “porque é que se deve comprar este livro?”, e o educacional, “porque é bom este livro?”. Mais uma vez, o fiel português força um prato bem abaixo do outro. O do mercado.

Serei uma das primeiras pessoas a aplaudir o surgimento de novas editoras, de novos autores, de novas apostas, mesmo sendo os objectivos dessa novidade toda puramente comercial: para a criação de um mercado, para que haja espaço e liberdade e, também importante, dinheiro para os seus criadores, é salutar que surjam projectos de toda a índole. Toda. Goste-se ou não. Portugal tem assistido nos últimos anos a um crescimento, que talvez tenha abrandado neste último ano, mas não substancialmente, do seu “mercado”.

Precisamente por seguirem o mercado, a maior parte dos regulares autores de artigos sobre bd dedicam-se ao que vai surgindo no mercado. Uns com mais atenção que outros, uns com mais pertinência, inteligência, conhecimento, elegância e abrangência que outros.

Precisamente por seguirem o mercado, a maioria das notícias se repete, os mesmos livros, os mesmos autores, os mesmos gostos e respeitos, e às vezes as mesmas atitudes e posições perante essa determinada obra.

Precisamente por seguirem o mercado, que já possui os seus mecanismos de distribuição e canais de informação e público mais ou menos fiel, estas recensões não ajudam muito ao objectivo primário: vender mais. O mesmo não acontece a projectos menos visíveis, mais independentes, que não alcançam uma presença mercancial idêntica à das (inteligentes) editoras portuguesas. Mas a maior atenção vai para esse mercado.

Precisamente por seguirem o mercado, e porque o mercado tem sido enchido de projectos que chegam a Portugal com algum atraso em relação à sua criação, ou se tratam de reedições de “clássicos” (qualquer coisa com 10 anos é um “clássico” nestas parlagens), lemos artigos longos dedicados ao que vai surgindo com atraso. Não me entendam mal, Hossanas a Hugo Pratt, a cores ou sem elas, abençoada seja Adéle Blanc-Sec entre as heroínas de papel, um grande Saravá ao Silêncio de Comés, aos meus amigos Moebius e Jodorowsky, Bilal e Hermann, Lucky Luke e Mafalda um grande abraço... mas, não seria mais interessante e desperto da parte de quem tem espaço nos jornais para falar de projectos mais recentes, mais vivos, mais interessantes, mesmo que fora dos trâmites frequentes, fora de portas, que exija ao leitor mexer-se um pouco além de descer à Sua Livraria Habitual, enfim?

Os gregos poderiam ter palavras mais esquisitas que as nossas, mas todas tinham a sua função consistente, e infelizmente hoje confundem-se. Estética, aisthētiké, significava “faculdade de sentir ou compreender pelos sentidos”. Menos conhecida é talvez a estese, de aísthēsis, “faculdade de sentir ou compreender pelos sentimentos” (veja-se o dicionário etimológico de J.P. Machado). Presumo não ser necessário discorrer muito que, se a segunda faculdade esbarra contra essa grande aporia usualmente coroada com o anexim De gustibus et coloribus non est disputandum, a primeira exige um mais relevado balanço analítico e cerebral.

Levanto alguns senões ligeiramente éticos ao facto de se escrever sobre livros publicados por uma editora na qual se trabalha ou para qual se contribui, mas uma vez que os livros nas apreciações se repetem, e estarmos a falar ainda de um universo reduzido, talvez esse seja um medo infundado e menor. Gritante é porém a impertinência de falar de projectos estrangeiros em absoluto despropósito: projectos que em nada contribuem para a revelação da arte, que em nada reviram o mercado, que em nada influenciam o que se passa no nosso país. Interesses duplos? Ou simples McGuffins?

Dos regulares, com grande destaque para todos os Joões seguidos de mais dois nomes (presumo que seja uma tramóia maçónica) – João Miguel Tavares, João Miguel Lameiras, João Ramalho Santos e João Paulo Cotrim, o que pautava as suas escritas mantém-se. Os critérios de visibilidade, disponibilidade e imediatez no mercado operam sobre as obras escolhidas, mas são estas as pessoas que melhor escrevem nas publicações regulares do país. João Miguel Tavares é algo desigual na sua escrita e considerações, mas tem uma produção assombrosa a louvar. Permita-me que chame a atenção para o facto de que a bd não é um género, mas sim um modo, o qual compreende vários géneros em si. Presumo ser fácil renovar a caixa no fim de cada artigo. João Miguel Lameiras é uma pessoa, como sempre, bem informada e esclarecedora, perguntando-me apenas se não se perde essa informação toda no jornal em que escreve e o seu fascínio por obras que, não obstante estarem disponíveis nova e mais facilmente em Portugal, pouca novidade trazem. João Paulo Cotrim continua a ter o dom da palavra, mas é uma escrita mais impressionista que analista. Dada a sua personalidade e dedicação pessoal, sobejamente conhecida, dedica uma atenção muito especial (presumo que a palavra ideal seria “carinho”, e não estou a zombar) para o que é publicado por portugueses, sem se prender em demasia com o que de mais mediático sai. João Ramalho Santos, talvez por poder escrever em duas publicações que prezam um outro nível de leitura, e tem cedido um espaço na folha considerável, é imperioso que nos ofereça considerações bem mais pertinentes das bds.

Afora estes recenseadores, Carlos Pessoa parece ter-se reduzido este ano às notas que vão saindo no Público que acompanham a edição do Tintim, pelo que não há muito a dizer; Pedro Cleto, que infelizmente tem muito pouco espaço, parece fazer a maioria das suas escolhas de temas num site francófono e simplesmente traduzir as notícias de que vai sabendo…
Que não dos regulares, alguns dos artigos pecam por variadíssimas razões: alguns são fracamente mal escritos, com um português desassociado das regras elementares da sintaxe, ou chãos. Mais grave em termos informativos é não procurarem garantir que os dados sejam verdadeiros e exactos, chegando-se a falar de Marcos Farrajota como director da Bedeteca, e da BD Fórum como orientada para “o ensaio e a vanguarda”!

Há surpresas, ainda que dúbias, por vezes. José Mário Silva deu alguma atenção ao livro recentemente editado em Portugal Fantomas contra os vampiros multinacionais, criado sobre um texto de Julio Cortázar. Mas infelizmente deixa o facto deste ser um volume de bd (híbrido) praticamente desapercebido.

Quanto à publicação Juve BD, que segundo o design parece um panfleto das promoções de um supermercado, se fosse dirigido “à pequenada”, aceitar-se-ia, e mesmo assim... Como algo feito por adultos cultores de um tipo de leitura, informados ou não – e não discuto o aspecto comercial, de que já falei – é de uma reflexão inexistente, se não mesmo anedótica.

Uma vez que há um certo culto do autor instaurado, uma mitificação dos desenhadores ou escritores, elevados a “génios”, é quase como se esses seres humanos não tivessem momentos de maior ou menos felicidade nas criações, como se as suas obras fossem sempre um crescendo, o que não é verdade em praticamente nenhum autor. Os novos trabalhos de autores como José Carlos Fernandes, Arlindo Fagundes, Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves, Diniz Conefrey, Luís Louro, são vistos como objectos de comemoração, e não se pensa mais sobre a importância desses trabalhos perante um panorama que não apenas o nacional, o que esbate em muito o valor dessas obras.

Gostava de facto de ver mais espaços para discussões mais profundas. Questões de estrutura, de fundo, questões verdadeiramente pertinentes perante as políticas comerciais, perante as escolhas editoriais, perante as aventuras estéticas que se passam no nosso país. Apenas como exemplo, três questões que não vi feitas:

1. na edição de Os sobrinhos do Capitão da Gradiva, porque é que começam com as tiras de Joe Musial, e não através de um critério histórico? Se houve algum impedimento, qual? E ao invés de ser a tira a adaptar-se ao formato do livro (as imagens estão esticadas num eixo vertical), porque não foi o livro a ser pensado em função da arte original? Perguntas que poderiam ser feitas à editora, quando se faz uma recensão.

2. ao falarem de Nós Somos os Mouros, editado pela Assírio & Alvim, não vi uma só referência à edição original da revista Le Cheval sans Tête, Nous Sommes Les Maures, da editora Amok, de 1998. Menção que nem a edição da A&A tem, sem prefácio, explicação, comentário, nota. Ambas as edições têm diferenças significativas, sobretudo de cortes, apesar da portuguesa acrescentar dois textos de Jõao Paulo Cotrim e Hernández Cava, e uma bd de JPC e Daniel Lima. Mas porque em nada se falou?

3. o Festival da Amadora foi dedicado ao tema da Mulher, tendo sido convidadas algumas das autoras fundamentais para um repensar da bd no feminino, especialmente nos últimos 20 anos, dos EUA. Muito bem, mas será que ninguém se perguntou o que é que o Amadora Cartoon, um festival afecto a determinadas editoras, festival no qual é visível a ausência de uma política coesa e reflexiva sobre a bd, tem a ver com essa cena alternativa? E num tema já sobejamente discutido noutras plataformas e em datas passadas, qual a pertinência de fazer um festival dedicado à Mulher, na qual estão lado a lado prestações de artistas com objectivos políticos e artísticos e uma exposição de personagens femininas como objecto de desejo? Mônica e Mafalda podem ser duas heroínas de banda desenhada sul-americana, mas termina aí qualquer coincidência, entre um autor de revistas de intuito comercial e infantil e um outro de uma insistência política marcada.

Volto a repetir. O que nós temos que passa por “crítica” está associado sobretudo à resenha jornalística, atenta ao mercado. E infelizmente, no panorama das publicações culturais em Portugal pouca ou nenhuma atenção dá a esta arte. A Magazine Artes publica artigos de JPC, mas as outras revistas de temas culturais não olham nesta direcção. Noutros países, nem sempre é assim. A Beaux Arts dedicou em 2003 dois números hors-série à bd. Apesar desta não ser das revistas mais sofisticadas sobre artes em França, e alguma das informações contidas nestes números ser “requentada”, as bds inéditas e as pequenas biografias não são de desprezar de todo. Mais longe, na Coreia do Sul, a Wolganmisool, revista sobre a cena das artes visuais do burgo, no seguimento da exposição La Dynamique de la BD Coréenne no 30º Festival de Angoulême, publicou 5 artigos relativos ao tema “Art & Comics”.

Na ausência de publicações como 9eArt (do Centre National de la Bande Dessinée et de L’Image), The Comics Journal, entre muitos outros títulos, com o infeliz desaparecimento da Nemo, só a Quadrado e, mais recentemente, a Satélite Internacional, parecem prestar-se a um maior fôlego para uma verdadeira crítica, contribuindo para o desenvolvimento de uma qualquer linha de pensamento mais teórico, mais abrangente, atenta aos trâmites e métodos do modo da bd e alternativa a uma visão somente de mercado. É mais que provável que não tenham chegado ao ponto certo, nem que alguma vez venha agradar a Gregos e Troianos. Eu próprio fui cultor de pequenos recados sobre a bd, durante algum tempo, na revista Flirt, mas na Quadrado é nesse sentido de análise que tento avançar, mal ou bem. Julgo que se referiram ao meu texto sobre O Diário de K., de Filipe Abranches, como “excesso académico”, mas ninguém me apresentou questões de fundo, estrutural ou até de pertinência. Gostaria de ver surgir discussões entre quem pensa a bd. Para que eu possa aprender, sobretudo, em como o fazer. Este espaço é único, mas não é bom que o seja.

O acto da leitura crítica é legítimo, sobretudo tendo em conta o que diz Manuel Frias Martins sobre a crítica como “projecto de recuperação mimética de eventuais paradigmas que circunscreveram a produção de um texto” (itál. orig.; ver. cap. II de Matéria Negra. Cosmos: 1993). Existem muitas categorias, escolas, e posições às quais a análise se poderá relacionar: a obra na sua genealogia, a sua relação ao cânone, os temas étnicos, sexuais, políticos e ideológicos, as categorias da retórica (e as especificidades deste modo) a que obedece e desobedece, aspectos psicológicos, sociológicos, de diálogo fora do seu campo de acção, de comentário perante um interlocutor imediato ou menos imediato, seguir a teoria da recepção ou integrá-la numa rede de influências, aferroada sobretudo na trilogia de Harold Bloom sobre a teoria do revisionismo, etc. São poucos os que o fazem, para além de chamar a atenção para o que está disponível nos escaparates. Não é preciso mais atenção ao que se vai publicando num círculo mais vasto – pois quem escreve sabe-o– mas é preciso que o coloquem à disposição dos leitores, e integrem o que falem nesse esquema mais vasto. Não sou apologista do fanzine per se - apenas se a qualidade e metodologia do mesmo importa - mas é preciso falar mais da produção nacional, de outros objectos editoriais mais híbridos, menos concretos, debruçarem-se mesmo sobre bds curtas que surgem pelas publicações. Parece existir algum tipo de cegueira, de adversidade generalizada a este tipo de produção.
Aparte Domingos Isabelinho (que viu publicado no final de 2002 no The Comics Journal um belíssimo artigo sobre o último livro de Baudoin), é raro ver alguém fazer comentários e leituras que respeitem a recuperação mimética que mencionei Muitos assustam-se com o que se diz, mas o que é dito é pensado. E falar de Gardfield? Não me lixem!

Agradecimentos a Marcos Farrajota, José Freitas, Paulo Mendes, Pedro Sabino, Pedro Silva, e Livros Dom Quixote (Rita Cruz).

 
     
  © 2002 Bedeteca de Lisboa