2005
Introdução

Edição
Sara Figueiredo Costa

Autores
Daniel Maia

Festivais
João Miguel Lameiras

Fanzines
Marcos Farrajota

Investigação
Adalberto Barreto

Movimentos
Geraldes Lino

 

 


2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2006, 2007, 2008, 2009

 


 
 
 
 

 
 
 

Pedro Vieira de Moura | ilustração: Pedro Zamith

Esperando que o Pedro Zamith não mo leve a mal, começarei este artigo por visar o desenho que o ilustra – e dou-vos portanto um exemplo de que uma “ilustração” não tem necessariamente de viver na sombra do texto, já que ela o pode criar a ele. Viso-o e digo-o erróneo. Se não mesmo errado (ou então, se preferirem, como retratando um erro comum…). Usualmente o crítico (enquanto pessoa singular) ou a crítica (enquanto disciplina do pensamento e do exercício da interpretação) são vistos como carrascos armados de inveja, presunção, água benta e pouco mais, uma espécie de imperador de trazer por casa com polegares demasiados grandes e que não tem nenhum diálogo nem com os autores, nem com a Arte de que fala, nem com quaisquer ideias, mas apenas possui o dom de lançar sentenças. A consequência básica é natural: um ódio a estes juízes que parecem ter o rei e o roque na mão e se arrogam de poderes de superioridade. Tudo isto, obviamente, é uma pura e continuada tolice. Não é esse o papel da crítica.

“Há muitos poucos artistas que queiram razoar sobre a sua arte. A sua vida é toda feita de impressões: face à filosofia, fazem pouco, ao raciocínio, bocejam, às deduções, adormecem. Crianças mimadas, mas acima de tudo crianças que não gostam de nada senão os seus próprios brinquedos e que fazem má cara às primeiras noções.” Que nem uma luva, este texto autorado por Rodolphe Töpffer, “inventor da banda desenhada” e seu primeiro ensaísta e pensador, em 1848, servirá a muitas circunstâncias nossas contemporâneas. Não é necessário, muito menos obrigatório, que os artistas que fazem banda desenhada (nem os que o fazem “melhor” nem o que as fazem “pior”) tenham de pensar a banda desenhada. Tampouco o mesmo é exigido aos leitores comuns e aos fãs. Os primeiros têm de criar, os segundos ler e apreciar, os terceiros afadigarem-se nos seus gostos sem quaisquer preocupações intelectuais. Ao crítico, porém, compete a instauração de ligações. Delas já falámos antes. Continuo a não vê-las surgir com a expressão, a pertinência, a importância, e até a potência que se desejaria num sistema livre de circulação e divulgação de ideias.

Em relação a anos anteriores, não há muito a acrescentar sobre os que mantêm a sua tarefa mais ou menos conseguida de escrever em publicações periódicas, pelo que não repetirei o que está para trás. Acrescentarei apenas que…

…este ano foi de vacas. Vacas gordas.

Primo. Surgiu um jornal totalmente dedicado à divulgação da banda desenhada, o BD Jornal, nascido do esforço de uma pessoa, Jorge Machado Dias (são várias as figuras neste país que recebem o nome - carinhoso – de “carolas”, pois levam mesmo um mundo aos ombros, tarefas hercúleas), ainda que com o apoio de muitos outros participantes, uns mais famosos que outros e já conhecidos da nossa pequena “cena”, outros menos famosos mas não por isso menos contribuidores. O jornal é sobretudo isso mesmo, um jornal, pelo que se centra em certames, festivais, acontecimentos internacionais, entrevistas, e reserva algumas páginas ora a artigos factuais sobre um ou outro autor, reservando ainda uma secção pra uma espécie de “estante” sobre o que se têm publicado por cá. Aí apresentam-se muitas vezes textos que mais não são do que copy-paste dos press realease, o que pouco adianta ao termo “crítica”. No entanto, vão surgindo por vezes textos maiores, mais uma vez centrando-se sobre um autor ou sobre um título, em que os escritores de vez em quando conseguem escapar-se de ma simples sinopse seguida de informações e dados e avançam uma tímida interpretação ou pensamento crítico. Sem grandes riscos, pois o encómio continua a ser o signo preferencial do que é editável, mas lentamente será possível obter esse espaço. Não surgiu ainda, que eu saiba, nenhuma controvérsia, a que normalmente estão os portugueses avessos, mas é na controvérsia e na discussão de ideias que isto “anda para a frente”.

Secundo. Das várias secções jornalísticas dedicadas à banda desenhada imprensa, como disse, há pouco a acrescentar, com a excepção da entrada em cena de Luís Chambel, de A Voz de Ermesinde, cujos poucos textos denotam desde já uma preocupação para além da mera notícia de publicação e chorrilho de informações facilmente comprovadas, chegando mesmo a tocar em pontos de extremo interesse conceptual para a leitura e interpretação da banda desenhada. De resto, os autores e críticos competentes continuam nos seus estilos particulares e de alguma busca de sentido, sejam eles mais cingidos a uma integração numa História balizada (João Miguel Lameiras, o melhor neste campo, sem dúvida), sejam eles a apontar para preocupações pessoais sobre uma área que se vai alargando (Nuno Franco, também sem concorrência nesse aspecto). Outros, porém, descambam cada vez mais em “crónicas” personalizadas, de uma intimidade atroz e que são absolutamente improdutivas se não mesmo contra-producentes a uma atitude inteligente para com a banda desenhada.

Tertio. Apesar de já ter discorrido sobre essa publicação, merece mais uma vez a nota de que a edição de Roteiro Breve da Banda Desenhada em Portugal, de Carlos Pessoa, foi, acima de tudo, e digo-o sem pestanejar, uma “oportunidade perdida”. Do seu valor crítico, nada há a descobrir. Mas ainda dentro de “edições”, há a salientar, pois para existir crítica é necessário distância e é por isso que se falam de “edições críticas”, há a assinalar a edição de O Príncipe Valente (Livros de Papel), que é uma espécie de aventura filológica no nosso incipiente mas nada displicente mercado de banda desenhada (veja-se o artigo de Leonardo de Sá no BD Jornal no. 2.).

Quarto. A blogosfera está cada vez mais cheia de exemplos de escrita sobre bd. Há os sites que já antes existiam sem grandes alterações (Comics Central), David Soares que se desdobra noutros campos além do da banda desenhada (O Sonho de Newton – osonhodenewton.crimsonblog.com). Várias pessoas criaram pequenos blogs de resenhas curtas, opiniões, copy-pastes, mas….tirando precisamente David Soares, que, apesar de tudo e infelizmente, se tem distanciado da banda desenhada quer em termos autorais quer em termos críticos, pouco se tem visto de francamente interessante do ponto de vista crítico (que não de outro, pois lá têm o seu valor enquanto divulgação, troca de informações, “olha aqui está”, “eu gramei de bué” e outras inanidades do género mas que servem para levar algumas pessoas a procurarem as publicações em questão). Geraldes Lino criou o seu Divulgando Bd (divulgandobd.blogspot.com), que é uma espécie de sua territorialização da internet da multímoda actividade já sabida. Nuno Franco, jornalista e crítico citado acima, montou o seu blog (80fls.blogspot.com), onde também coloca textos sobre bds. Também vários artistas criaram blogs ou sites dos seus trabalhos, agora de cor digo André Lemos (opuntia-syndrome.blogspot.com)e Alice Geirinhas (alicegeirinhas.com), mas raramente falam criticamente de outros trabalhos ou livros ou mesmo das suas criações. Um outro blog de interesse, bastante, é Mania dos Quadradinhos (quadradinhos.blogspot.com), de Rezendes, sobretudo versando aspectos históricos e factuais de uma banda desenhada mais clássica, mas um manancial de informações preciosas e de apreciação da arte dos artistas visados, coroadas pela arte original apresentada, que presumo ser colecção pessoal, de criar, por sua vez, grandes invejas. Quanto a mim, criei um blog que, desde a sua fundação, tem já algumas entradas, muito diversas em objectivos e qualidades, como facilmente se depreende, mas onde tento em muitas delas colocar em prática alguns dos princípios já aqui debatidos e posições teóricas e intelectuais defendidas. Caberá a outros julgá-lo, ora no seu conjunto ora os artigos individuais, conceptualmente, já que não posso ter a distância necessária. (Mas repito que pouco me interessam bate-bocas pessoais, mas antes que me dirijam ideias concretas a debater).

Quinto. Outras surpresas estão em publicações que não dedicadas à banda desenhada que convidaram pessoas relacionadas com esta arte a se expressarem. Falo, por exemplo, da Vértice, onde saíram artigos de Pedro Mota e Teresa Guilherme Santos e de Cristina Gouveia (no. 117 – na verdade este é de 2004), Geraldes Lino (no. 124) e dois meus (120 e 124). Seria interessante fazer uma comparação de objectivos conceptuais e realização desses mesmos objectivos dos artigos/autores vários, e sua consequente pertinência ao estado da discussão da banda desenhada em Portugal, mas isso ficará para outra oportunidade. O artigo de Pedro Mota e Teresa Guilherme Santos, por exemplo, apresenta uma série de questões-chave com as quais discordo teoricamente (forma e conteúdo, empatia, etc.), mas é precisamente um artigo que fundamenta e estrutura uma discussão conceptual de uma forma acabada, conseguida. A Nada, publicação dedicada a um território muito sensível das fronteiras entre as artes, as ciências e a filosofia (os quase-abismos da “máquina” Deleuze-Guattari), editou um artigo de Jaime Freire, sobre Frank Miller. Presume-se e espera-se que este número e estas participações se multipliquem no futuro. Outras publicações de menor impacto e visibilidade também abriram as portas, mas a própria dificuldade em as encontrar levaria a uma certa impertinência da minha parte… Simplesmente pour prendre date, indico a publicação “marginal” A Voz de Deus (do Porto). A Mondo Bizarre e a Underworld, por exemplo, mantém as suas secções de “leitura” e “breves” sobre bd. Finalmente, e com a triste notícia de ter sido o último, a Satélite Internacional editou um número (duplo) totalmente dedicado ao texto – com entrevistas, ensaios e resenhas. Alguns desses textos tentam, de facto, levar a discussão geral ou particular das especificidades da banda desenhada enquanto modo (Paulo Patrício, Mário Moura, Jans Balser e Olivier Deprez, eu próprio – que modéstia!) ou de artistas específicos (Nuno Franco)...

Continuamos face à ausência generalizada de uma associação das leituras das bandas desenhadas que vão sendo publicadas entre nós, independentemente da sua data de publicação original, da sua pertinência estética face à própria História interna deste modo, das circunstancialidades de execução, produção e edição, a um mais vasto e contínuo (ou descontinuado, conforme a posição teórica) fluxo cultural. Continua-se sobretudo preso à informação, no seu mais pesado sentido de dados em bruto, ou reduzidos à mera notícia. Em suma, continua-se genericamente alheio a uma potencialidade real deste modo, e prefere-se manter uma atitude ora nostálgica, ora debilmente poética (“a banda desenhada faz sonhar”), ora ainda enveredando por territórios perigosos e extremamente redutores, na típica cegueira “aspectual” de tomar o todo pelas partes, ou o modo pelos seus exemplos, como quando se afirma que “a banda desenhada é uma linguagem simples e universal”. Não é. Resta, porém, explicitar-se porque o não é ou porque se a considera como tal. Tal é o papel dos críticos. Não é, independentemente das crenças populares, deixar cair o cutelo.

 
     
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