2009
Introdução

Edição
Daniel Maia

Autores
Daniel Lima

Festivais
Nuno Franco

Fanzines
Marcos Farrajota

Investigação
Sara Figueiredo Costa

Movimentos
Geraldes Lino

 

 


2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008

 


 
 
 
 

 
 
 

texto de Domingos Isabelinho



Há um ano confessava a minha dificuldade em escrever as metacríticas anuais do dossiê da Bedeteca (porque, de ano para ano, nada de novo se passa) e classificava uma investigação para tentar encontrar “pequeníssimas variações, ondas microscópicas no marasmo da superfície...” como uma “tarefa hercúlea” que muito provavelmente “iria parir um rato”. Desta vez, no entanto, decidi mesmo meter a mão na massa crítica, mas a motivação foi outra… Desde que escrevo os balanços anuais do dossiê da Bedeteca que parti de certas generalizações sobre o trabalho dos críticos de banda desenhada em Portugal. O problema é que generalizações feitas a partir de dados recolhidos no terreno são conceitos enquanto generalizações sem essa condição prévia são ideias feitas, estereótipos, ou o que se queira chamar-lhes...

Nenhum estereótipo se cria por geração espontânea. Neste caso tive em conta a história da banda desenhada durante o último século (a qual não foi particularmente brilhante) e o silogismo seguinte: 1) não é o leitor ocasional que vai sentir-se suficientemente motivado para escrever sobre banda desenhada na comunicação social; o crítico é alguém que, a determinada altura, sentiu o bichinho da coisa a morder-lhe as entranhas (por assim dizer); 2) os críticos no activo cresceram a admirar desmesuradamente (a sobrevalorizar) humor inócuo (no pior dos casos) ou sátiras (como “Astérix”, no melhor), bem assim como certas obras (e respectivos autores) não só infantis como de “série B” (caso seja legítimo fazer esta transposição do cinema para a banda desenhada); 3) o que escrevem reflecte essa posição de base transmitindo uma imagem estereotipada da banda desenhada como arte de massas muito, mas mesmo muito, menor...

Não vou tampouco dizer que fiz um trabalho exaustivo e com metodologias científicas adequadas. Não sou sociólogo e um trabalho feito por alguém situado fora de uma área profissional, seja ela qual for, só pode ser apelidado de amador.
Mas passemos ao que interessa... A minha pesquisa: 1) confirmou a minha impressão; 2) revelou-me dados novos; 3) desmentiu-me em parte, como não podia deixar de ser...

A palavra “crítica” tem as costas muito largas, como sabemos... Para apelidar um texto de “crítica” e o seu autor de “crítico” vale quase tudo... Um texto crítico pode ser jornalístico (de carácter informativo) e é normal que, num jornal, essa dimensão surja com frequência (li este ano algumas boas reportagens, sobretudo da autoria de Carlos Pessoa). Mas quando o crítico reflecte sobre um acontecimento ou sobre uma obra espera-se que o faça de forma informada e fundamentada. Afirmações "fanáticas" (no sentido de "proferidas por um fã") são, regra geral, acríticas. Um crítico fã ou um fã crítico fazem parte da acrisia da crítica...

Posto isto eu diria que há muito pouca crítica de banda desenhada a sério nos jornais portugueses. A título de exemplo comparemos dois casos: 1) José Vítor Malheiros, a propósito de “Dilbert” de Scott Adams (Público, 31 de Julho): “Declaração de interesses: sou um fã. [...] Há quem ache que Dilbert é uma poderosa arma anticapitalista e um exemplo de activismo anti-corporate, mas Marx não gostaria do Dilbert. A verdade é que Dilbert é uma insider joke e não ataca mortalmente o coração pérfido do sistema, apenas lhe faz cócegas.”; 2) Pedro Cleto, a propósito do ano de 1934 nas comic strips norte-americanas (Jornal de Notícias, 12 de Setembro): “Com estes heróis – invencíveis, invulneráveis, corajosos, audazes, musculados e/ou inteligentes, capazes de enfrentar e vencer os piores inimigos e os mais inimagináveis perigos, apenas para conseguir a vitória do bem, restaurar a ordem e conquistar/libertar as suas belas (e quase sempre eternas…) noivas, – os norte-americanos e, na sua peugada, progressivamente, muitos outros, vibravam dia-a-dia com as suas façanhas, sofriam com os seus revezes, descobriam (e sonhavam com) universos exóticos e deslumbrantes, reencontravam, em suma, razões para esquecer a realidade diária, para sonhar, acreditar, ter esperança. [Etc... etc...]”

É curioso que Vítor Malheiros, um verdadeiro crítico (demonstra-o ao não se deixar enganar pelas aparências), se declare “fã” enquanto um “fã” se faz passar por crítico. É inadmissível que o colonialismo (em Tarzan, por exemplo, ou no inenarrável Fantasma: nos tais “universos exóticos” onde o homem branco faz a sua lei), o machismo (de “máquinas” narrativas que destinam à mulher - e ao comparsa de origens “exóticas” – um papel passivo) e o vigilantismo (em Batman e outros “heróis”, mais ou menos super), bem assim como o mais despudorado racismo (por todo o lado nas comic strips e nos comic books - na personagem Ebony de Will Eisner, por exemplo) não só sejam branqueados (e nunca melhor dito) como, ainda por cima, sejam “o bem” (e ressalvo casos muito raros como as pranchas dominicais poéticas de “Gasoline Alley” ou o Coconino County de George Herriman em “Krazy Kat” – mas já alguém reparou que os índios norte-americanos estão, nesta série, estranhamente ausentes do seu próprio mundo?). É também incrível que um crítico defenda explicitamente a alienação tornando-se cúmplice desta autêntica doutrinação encapuçada. Pedro Cleto é, aliás, useiro e vezeiro neste tipo de branqueamento (caso do racista Hergé, na primeira fase da sua carreira: Jornal de Notícias, 10 de Janeiro). Idem Manuel António Pina (Notícias Magazine, 20 de Setembro): o autor argumenta que se deve fazer uma contextualização histórica da atitude de Hergé; de acordo: havia muitos racistas e Hergé era um deles – está feita... (Já que ando por estas bandas corrijo o seguinte: J. W. Müller não foi inspirado em ninguém de nacionalidade alemã; o nome J. W. Müller foi inspirado no bem português Adolfo Simões Müller.)

Outro problema é a falta de análises mais técnicas que sublinhem fórmulas narrativas e fraquezas evidentes na construção dos bonecos (não merecem sequer o nome de personagens) bem assim como o simplismo de mundos que, coloridos ou não, são sempre a preto e branco… (E, já agora, se os tais “heróis” são “invencíveis, invulneráveis” como é que são, ao mesmo tempo, “corajosos, audazes”, etc, etc? A coragem é a capacidade de vencer o medo em situações de perigo. Alguém que é invulnerável está em concorrência desleal com os seus inimigos e não pode sentir medo porque é invencível. Nem sequer se encontra nunca em situação de enfrentar “os mais inimagináveis perigos” porque quem nunca morre é imune ao risco.)

Se a acrisia é um problema muito grave num crítico (a ironia é propositada), a falta de fundamentação do que se afirma retira, pelo menos, peso às opiniões proferidas. A título de exemplo: João Miguel Lameiras refere a dicotomia banda desenhada comercial / banda desenhada alternativa sem a problematizar (As Beiras, 12 de Dezembro). “Comercial” é tudo o que reforça estereótipos dominantes na sociedade (servindo-se como veículo de formas “transparentes”: não é só o conteúdo que não problematiza, a forma idem). Histórias onde o espectador, leitor, etc... se reconhece... É dever do crítico reflectir sobre elas e, sejamos sérios (volto ao caso anterior), uma leitura da banda desenhada norte-americana dos anos trinta (e nem precisa de ser muito profunda), mostra-nos uma sociedade racista e imperialista, com ideias de extrema-direita (camufladas em democracia) não muito diferentes daquelas que reinavam na Alemanha e na Itália da altura…

Já que falo em João Miguel Lameiras (e, atenção, o autor foi crítico quando escreveu um bom texto sobre “Eternus 9” - As Beiras, 14 de Fevereiro) pergunto-me o que terá querido dizer quando afirmou que uma história do surfista prateado está "bem escrita e bem contada" (As Beiras, 17 de Janeiro)? (O mesmo repetiu João Ramalho Santos: Jornal de Letras, 2 de Junho.) O problema é que nada é problematizado, nada é explicado... Será que Straczynski é tão bom escritor como Tchekov?...

A própria linguagem dos críticos de banda desenhada dos jornais me dá razão e confirma as ideias, feitas ou nem tanto, que deles tenho: a personagem principal é sempre “o herói”, a maior parte das vezes não se trata de obras mas de “séries”... Bem mais de metade dos textos falam sobre banda desenhada infantil ou juvenil (isto não acontece em nenhum outro campo artístico) e isto não quer dizer que o resto foque a banda desenhada adulta, quer simplesmente dizer que a grande maioria da percentagem restante é reportagem.

Um facto francamente surpreendente para este escriba (tanto mais que está muito longe de tudo quanto é esquema mental formativo da minha identidade) é o economicismo subjacente a muitos dos textos em causa. Carlos Pessoa e Pedro Cleto (mas não só, é toda uma sociedade que os acompanha) estão fascinados pelo dinheiro. Tudo quanto cheire à circulação de bilhetinhos verdes (ou bits em contas bancárias virtuais) os atrai, quais ratinhos apanhados pelo cheiro do queijo. Os exemplos são muitos e vão desde a referência a tiragens colossais (Carlos Pessoa, Público, 4 de Julho) até ao preço exorbitante pago por certos coleccionadores nos mercados da nostalgia e da burrice (Pedro Cleto, Jornal de Notícias, 10 de Março).

Fui desmentido (mas não muito porque sempre soube que existiam excepções a confirmar a regra, evidentemente) porque algumas, poucas, obras de qualidade também são mencionadas: colecção “O Filme da Minha Vida” (Sara Figueiredo Costa, Ler, 1 de Setembro); “O Sétimo Selo” de Jorge Nesbitt (Pedro Cleto, Jornal de Notícias, 1 de Março); “Caminhando Com Samuel” de Tommi Musturi (Sara Figueiredo Costa, Expresso, 12 de Dezembro), “Diário Rasgado”, exposição de Marco Mendes (Luís Chambel, A Voz de Ermesinde, 15 de Maio).

De resto, o tom da grande maioria do que se escreve em Portugal sobre banda desenhada enquadra-se naquilo a que chamei: a estória. Para se fazer história a sério não basta alinhar uma série de factos (e certificar-se de que estão correctos), é necessário enquadrar as obras na sociedade do tempo em que foram criadas, analisá-las à luz da teoria, etc… Para além da estória há todo um folclore, típico das subculturas, feito de registos de efemérides (50 anos deste, 75 daquele, etc… etc…), curiosidades mais ou menos curiosas (relacionadas com Barack Obama, por exemplo), necrologia (Vasco Granja), as sacrossantas adaptações ao cinema (“Watchmen”)…

A maior calinada do ano (aliás, são três calinadas juntas) vai para Cristóvão Gomes no jornal i (a propósito: nada de novo e muito menos de estimulante por estas bandas, embora o jornalista tenha uma escrita que não é, de todo, desprovida de qualidades; também não percebo como é que o “Especialista BD” conseguiu falar sobre o plagiador Charles Schulz – dizendo inclusivamente: “Foi [o] desencanto que levou a obra [“Peanuts”] a sítios antes vedados à BD” – sem referir o espoliado Percy Crosby – 5 de Março de 2010) o qual escrevinhou (25 de Setembro de 2009): “aos 15 anos [José Muñoz] estava inscrito na Escola das Artes [sic], assistindo a aulas de Pratt e de Alberto Breccia. Acabaria por colaborar mesmo com Pratt em Ernie Pike.” Não senhor, José Muñoz nunca foi aluno de Hugo Pratt na Escola Panamericana de Arte e muito menos colaborou com o dito em “Ernie Pike”… José Muñoz colaborou, sim, com Héctor Germán Oesterheld em “Ernie Pike”. De uma vez por todas: “Ernie Pike” é uma série de Héctor Germán Oesterheld na qual Hugo Pratt apenas participou (para melhor a plagiar em “Corto Maltese”, claro; a minha base de dados regista dezanove histórias desenhadas por Pratt, mas está incompleta – porque ainda me faltam oitenta livros da Editorial Frontera e porque é um trabalho ainda por completar; o total de histórias da personagem Ernie Pike que a citada base de dados regista, por enquanto, é de cento e cinquenta e quatro – e falta-me incluir, precisamente, a série “Ernie Pike, corresponsal de guerra, Batallas inolvidables” – vinte e sete números publicados). Não consigo perceber a fixação hagiográfico-maníaca por certas vacas sagradas, mas menos ainda consigo perceber quando, em nome dos santos (de pau carunchoso, como Pratt), um jornalista falseia os factos.

Ainda a propósito de outra calinada de Cristóvão Gomes (i, 14 de Agosto), quizz show: alguém sabe quem é Danny Rolling?

No já algo longínquo ano de 2006 corrigi um dos erros mais difundidos no meio crítico da banda desenhada: o boato de que Will Eisner inventou o termo “graphic-novel”. Desta vez tenho de bisar porque Pedro Cleto parece particularmente vulnerável a estas confusões (Jornal de Notícias, 3 de Janeiro): o termo “manga” não foi criado por Hokusai no século XVIII [sic], o termo “manga” foi criado por Hanabusa Itcho no século XVII.
Um autor anónimo afirmou (Público, 11 de Março) que Andrei Molotiu é de nacionalidade alemã; não é: Andrei Molotiu é norte-americano de origem romena.

O livro do ano é o excelente (mas breve) “Almanaque: Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora XX Anos” publicado pela Câmara Municipal da dita cidade com coordenação editorial de Sara Figueiredo Costa. O livro é mais do que aquilo que dá a entender no (modesto) título porque nele se traça um panorama do meio durante as últimas duas décadas. Merece também referência o número duplo (13 + 14) da revista “Margens e Confluências, Um olhar contemporâneo sobre as artes” publicado pela ESAP de Guimarães. Destaco o excelente artigo de Pedro Moura “O Peregrino Cego”, sobre a obra homónima de Eduardo Batarda numa revista onde, curiosamente, o artigo de João Paulo Cotrim “O perigoso salto entre um quadradinho e o outro”, datado do ano 2000 (com nota biográfica a condizer!, ou seja, com nota biográfica a parar no dito final de milénio), faz figura de parente pobre a demonstrar que, apesar de tudo, algo se vai avançando.

Na internet Sara Figueiredo Costa (http://becodasimagens.wordpress.com/) e Pedro Moura (http://lerbd.blogspot.com/) continuam o seu bom trabalho (e lamento não me alongar mais…). Mas quero realçar um post em particular, da autoria de Diniz Conefrey, no blog Quarto de Jade (30 de Dezembro): “Fernando Relvas – O Abismo do Autor” (http://quartodejade.wordpress.com/2009/12/30/fernando-relvas-o-abismo-do-autor/). Não é vulgar os autores reflectirem sobre a arte dos colegas. E menos, com esta qualidade…

A frase do ano vai para João Ramalho Santos (Jornal de Letras, 11 de Fevereiro): “Os medíocres não deveriam ser tão recompensados, até porque é inevitável que essa recompensa penalize os que vale a pena conhecer.” Aplaudo vivamente até porque é esta a razão principal que me faz escrever sobre banda desenha. Só é pena que quem tal escreveu me faça lembrar frei Tomás…

 
     
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