2003
Introdução

Crítica
Pedro Moura

Autores
Paulo Patrício

Festivais
João Miguel Lameiras

Fanzines
Marcos Farrajota

Investigação
Adalberto barreto

Movimentos
Geraldes Lino

 

 


2000, 2001, 2002, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009

 


 
 
 
 

 
 
 

João Miguel Tavares | ilustração: José da Fonseca

No final de 2002, terminei da seguinte forma a avaliação do ano editorial que me foi pedida pela Bedeteca: «O próximo ano vai com certeza ser de recessão. Donde, é aproveitar o tempo de vacas gordas, porque não se voltará a editar tanto e com tanta qualidade tão depressa.» Pois é, caro leitor: sou um incompetente e um futurista falhado. A previsão revelou-se erradíssima. Em 2003 ainda se editaram mais livros, e muitos deles de excelente qualidade. Por outras palavras, a vaca continua gorda. Mas, teimoso como sou, posso pelo menos invocar este argumento a meu favor: mantenho a certeza de que, ou a vaca emagrece, ou morrerá de obesidade.
O que é que isto quer dizer? É simples: o mercado editorial português de banda desenhada continua a crescer muito acima das suas possibilidades. Estão-se a editar muitíssimos livros para ocupar espaço em loja, mas para os quais não existe verdadeiramente um público, e a situação afigura-se impossível de sustentar durante muito mais tempo. É possível que a proliferação de editoras e a variedade da oferta tenha sido capaz de alargar o público que consome BD – também em França 2003 foi um ano de recordes na publicação e na compra de banda desemhada –, mas jamais o terá alargado ao ponto de ele ser capaz de absorver todos os álbuns que semanalmente são lançados para as livrarias.

Em 2002 realizei um pequeno estudo para o Diário de Notícias onde concluía que o mercado crescera cerca de 50 por cento só no espaço de um ano e que tinham chegado às lojas meio milhão de exemplares de livros de BD. Ao mesmo tempo, quer na Fnac quer no Continente, o público continuava a consumir sensivelmente a mesma BD que no ano anterior. Não repeti esse estudo em 2003, mas, seguindo os números coligidos por Daniel Maia num artigo elaborado para a Centralcomics (www.centralcomics.com), terão sido editados no ano que terminou cerca de 450 títulos. Ainda que só dois terços deste número seja referente a álbuns (o restante são revistas), o valor não deixa de ser impressionante (mais 50 por cento do que em 2002) e revelador daquilo a que se costuma chamar uma «fuga para a frente». Ou seja, num tempo altamente competitivo, a maior parte das editoras quer marcar posição e continua a lançar álbuns a um ritmo muito superior ao que seria aconselhável.

Em termos individuais, o grande destaque para o ano em volume de edição vai para a Asa, aparentemente decidida a ocupar o lugar de gigante da BD deixado vago após a crise da Meribérica. A Asa, apoiada numa grande estrutura editorial, conseguiu algumas vitórias ao conquistar os direitos de autor das obras de Milo Manara, Enrico Marini e, sobretudo, de Lucky Luke. Para marcar o território nas grandes superfícies, lançou em 2003 mais de um título por semana, mas uma percentagem significativa do seu catálogo é de interesse no mínimo duvidoso, mesmo em termos estritamente comerciais. Tendo em conta que a sua última aventura no domínio da BD foi um enorme fracasso, resta saber se a casa do Porto não está de novo a revelar-se, neste campo, excessivamente ambiciosa. 2004 irá ajudar a esclarecer estas dúvidas.
Quanto à Meribérica, e ao contrário do que muitos esperavam, está lentamente a levantar a cabeça. Este ano triplicou as novidades relativamente a 2002, com volumes inéditos de séries como Blake & Mortimer, Tenente Blueberry, Corto Maltese, Akira ou XIII. O seu catálogo está bem mais curto, mas continua a ser o mais apetecível de todo o mercado português. Os lançamentos são menos do que nos tempos áureos, mas mais criteriosos – e importa recordar que quem tem Astérix tem (quase) tudo.

Da Devir nunca há muito a dizer, porque mantém a regularidade de um pêndulo. É praticamente um monopólio na sua principal área de intervenção (os comics americanos), e nesse campo trabalha indiscutivelmente bem. Para além das revistas que são o seu ganha pão, voltou a publicar obras essenciais de nomes tão importantes quanto Frank Miller, Alan Moore ou Mike Mignola.

A Vitamina BD continua também a trilhar o seu próprio caminho, sem se entusiasmar excessivamente com o ambiente que a rodeia. Lançou 15 novidades em 2001, 19 em 2002, 21 em 2003. O seu plano inicial para este ano era mais ambicioso, mas Pedro Silva sabe fazer contas, e, nos tempos que correm, essa é a melhor garantia para sobreviver no mercado de BD.

Uma palavra especial em relação à Witloof, que apostou forte em 2003 e merece ser recompensada. A editora de Fanny Denayer é, actualmente, a que possui o melhor catálogo de BD franco-belga, em termos qualitativos. Este ano editou Tardi, Schuiten e Peeters, Cosey, Smudja, Yslaire, Sfar e Guibert. Não faço ideia se a aposta na qualidade compensou, mas gostava de acreditar que sim.

Deixei para o fim, entre as principais editoras de BD, a Polvo e a Booktree, porque são das raras que não publicaram mais livros do que em 2002. A primeira diminuiu o número de títulos lançados pelo terceiro ano consecutivo mas, ainda assim, continuou a apostar nos álbuns a cores, e lançou os fundamentais Persépolis, de Marjane Satrapi, e A Vida numa Colher, de Miguel Rocha. A segunda pode bem vir a ser a primeira grande baixa na corrida desenfreada pelo domínio do mercado de banda desenhada nacional. Não só editou metade dos livros de 2002, ano em que competiu directamente com a Asa, como praticamente desapareceu das lojas na segunda metade do ano, altura em que o ritmo de edição costuma ser mais intenso.

Uma referência também ao mundo das tiras, que continua activo e diversificado, com várias editoras sem tradição na área da BD a lançarem-se nesse campo, embora não com o entusiasmo demonstrado pela Gradiva há um par de anos.

À margem das editoras propriamente ditas, 2003 ficou sem dúvida marcado pela aposta na BD de dois jornais de grande tiragem. O Público está a editar a obra completa de Tintim e o Correio da Manhã tem vindo a distribuir aos domingos uma miscelânea de títulos que abarcam múltiplos autores e múltiplos estilos. Ambos os projectos parecem estar a ser bem sucedidos, o que demonstra que a BD continua a ser uma arte capaz de apelar a uma larga fatia de público.

Em jeito de conclusão, devo afirmar que o próximo ano vai com certeza ser de recessão. Donde, é aproveitar o tempo de vacas gordas, porque não se voltará a editar tanto e com tanta qualidade tão depressa.

 
     
  © 2002 Bedeteca de Lisboa