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João Miguel Tavares | ilustração: José da Fonseca
No final de 2002, terminei da seguinte forma a avaliação do ano editorial que me foi pedida pela Bedeteca: «O próximo ano vai com certeza ser de recessão. Donde, é aproveitar o tempo de vacas gordas, porque não se voltará a editar tanto e com tanta qualidade tão depressa.» Pois é, caro leitor: sou um incompetente e um futurista falhado. A previsão revelou-se erradíssima. Em 2003 ainda se editaram mais livros, e muitos deles de excelente qualidade. Por outras palavras, a vaca continua gorda. Mas, teimoso como sou, posso pelo menos invocar este argumento a meu favor: mantenho a certeza de que, ou a vaca emagrece, ou morrerá de obesidade.
O que é que isto quer dizer? É simples: o mercado editorial português de banda desenhada continua a crescer muito acima das suas possibilidades. Estão-se a editar muitíssimos livros para ocupar espaço em loja, mas para os quais não existe verdadeiramente um público, e a situação afigura-se impossível de sustentar durante muito mais tempo. É possível que a proliferação de editoras e a variedade da oferta tenha sido capaz de alargar o público que consome BD – também em França 2003 foi um ano de recordes na publicação e na compra de banda desemhada –, mas jamais o terá alargado ao ponto de ele ser capaz de absorver todos os álbuns que semanalmente são lançados para as livrarias.
Em 2002 realizei um pequeno estudo para o Diário de Notícias onde concluía que o mercado crescera cerca de 50 por cento só no espaço de um ano e que tinham chegado às lojas meio milhão de exemplares de livros de BD. Ao mesmo tempo, quer na Fnac quer no Continente, o público continuava a consumir sensivelmente a mesma BD que no ano anterior. Não repeti esse estudo em 2003, mas, seguindo os números coligidos por Daniel Maia num artigo elaborado para a Centralcomics (www.centralcomics.com), terão sido editados no ano que terminou cerca de 450 títulos. Ainda que só dois terços deste número seja referente a álbuns (o restante são revistas), o valor não deixa de ser impressionante (mais 50 por cento do que em 2002) e revelador daquilo a que se costuma chamar uma «fuga para a frente». Ou seja, num tempo altamente competitivo, a maior parte das editoras quer marcar posição e continua a lançar álbuns a um ritmo muito superior ao que seria aconselhável.
Em termos individuais, o grande destaque para o ano em volume de edição vai para a Asa, aparentemente decidida a ocupar o lugar de gigante da BD deixado vago após a crise da Meribérica. A Asa, apoiada numa grande estrutura editorial, conseguiu algumas vitórias ao conquistar os direitos de autor das obras de Milo Manara, Enrico Marini e, sobretudo, de Lucky Luke. Para marcar o território nas grandes superfícies, lançou em 2003 mais de um título por semana, mas uma percentagem significativa do seu catálogo é de interesse no mínimo duvidoso, mesmo em termos estritamente comerciais. Tendo em conta que a sua última aventura no domínio da BD foi um enorme fracasso, resta saber se a casa do Porto não está de novo a revelar-se, neste campo, excessivamente ambiciosa. 2004 irá ajudar a esclarecer estas dúvidas.
Quanto à Meribérica, e ao contrário do que muitos esperavam, está lentamente a levantar a cabeça. Este ano triplicou as novidades relativamente a 2002, com volumes inéditos de séries como Blake & Mortimer, Tenente Blueberry, Corto Maltese, Akira ou XIII. O seu catálogo está bem mais curto, mas continua a ser o mais apetecível de todo o mercado português. Os lançamentos são menos do que nos tempos áureos, mas mais criteriosos – e importa recordar que quem tem Astérix tem (quase) tudo.
Da Devir nunca há muito a dizer, porque mantém a regularidade de um pêndulo. É praticamente um monopólio na sua principal área de intervenção (os comics americanos), e nesse campo trabalha indiscutivelmente bem. Para além das revistas que são o seu ganha pão, voltou a publicar obras essenciais de nomes tão importantes quanto Frank Miller, Alan Moore ou Mike Mignola.
A Vitamina BD continua também a trilhar o seu próprio caminho, sem se entusiasmar excessivamente com o ambiente que a rodeia. Lançou 15 novidades em 2001, 19 em 2002, 21 em 2003. O seu plano inicial para este ano era mais ambicioso, mas Pedro Silva sabe fazer contas, e, nos tempos que correm, essa é a melhor garantia para sobreviver no mercado de BD.
Uma palavra especial em relação à Witloof, que apostou forte em 2003 e merece ser recompensada. A editora de Fanny Denayer é, actualmente, a que possui o melhor catálogo de BD franco-belga, em termos qualitativos. Este ano editou Tardi, Schuiten e Peeters, Cosey, Smudja, Yslaire, Sfar e Guibert. Não faço ideia se a aposta na qualidade compensou, mas gostava de acreditar que sim.
Deixei para o fim, entre as principais editoras de BD, a Polvo e a Booktree, porque são das raras que não publicaram mais livros do que em 2002. A primeira diminuiu o número de títulos lançados pelo terceiro ano consecutivo mas, ainda assim, continuou a apostar nos álbuns a cores, e lançou os fundamentais Persépolis, de Marjane Satrapi, e A Vida numa Colher, de Miguel Rocha. A segunda pode bem vir a ser a primeira grande baixa na corrida desenfreada pelo domínio do mercado de banda desenhada nacional. Não só editou metade dos livros de 2002, ano em que competiu directamente com a Asa, como praticamente desapareceu das lojas na segunda metade do ano, altura em que o ritmo de edição costuma ser mais intenso.
Uma referência também ao mundo das tiras, que continua activo e diversificado, com várias editoras sem tradição na área da BD a lançarem-se nesse campo, embora não com o entusiasmo demonstrado pela Gradiva há um par de anos.
À margem das editoras propriamente ditas, 2003 ficou sem dúvida marcado pela aposta na BD de dois jornais de grande tiragem. O Público está a editar a obra completa de Tintim e o Correio da Manhã tem vindo a distribuir aos domingos uma miscelânea de títulos que abarcam múltiplos autores e múltiplos estilos. Ambos os projectos parecem estar a ser bem sucedidos, o que demonstra que a BD continua a ser uma arte capaz de apelar a uma larga fatia de público.
Em jeito de conclusão, devo afirmar que o próximo ano vai com certeza ser de recessão. Donde, é aproveitar o tempo de vacas gordas, porque não se voltará a editar tanto e com tanta qualidade tão depressa.
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