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Sara Figueiredo Costa | ilustração: Pedro Zamith
Já é lugar comum falar da crise antes de qualquer balanço dos últimos tempos... A verdade é que ela anda aí e, mesmo sem rosto definido e servindo para todas as desculpas, tem feito alguns estragos consideráveis em quase todas as frentes. A edição de livros de banda desenhada, como se esperava, não é excepção.
O ano que passou ficará marcado pela extinção da Meribérica/ Liber, depois das ameaças e dos sinais de crise que se vislumbravam. A editora que já publicou Astérix ou Lucky Luke, e que recentemente continuava a deter os direitos de Corto Maltese (para ficarmos pelas séries de maior impacto comercial), vinha perdendo o seu espaço nos últimos anos, com os direitos de vários autores a transitarem para a Asa e com alguma desorganização no catálogo (pese embora as recentes investidas com Akira, ou com Blueberry), tendo acabado por sucumbir às inevitabilidades de um mercado que continua a movimentar-se um pouco à margem do público leitor.
A Asa e a Devir consolidaram, no ano que passou, a sua posição dominadora no mercado editorial português, assegurando a quase totalidade das publicações que chegaram aos escaparates das grandes livrarias. A Asa prosseguiu algumas séries (como Bouncer ou Gipsy) e iniciou outras, tendo sido responsável por alguns lançamentos de boa memória como Mort Cinder, de Breccia e Oesterheld (por fim!). A Devir, por seu lado, continuou o trabalho já consolidado no âmbito dos comics norte-americanos, assegurou a edição de obras entretanto adaptadas ao cinema (Sin City, de Frank Miller, prossegue em português) e trouxe-nos o segundo volume da série Sandman, um novo volume de José Carlos Fernandes e a sua Pior Banda do Mundo (O Depósito de Refugos Postais) e Strangehaven na Arcádia, de Gary Spencer Millidge, para destacar os que me parecem mais memoráveis.
Novidade a registar em 2005 foi o facto de a Gradiva, bem conhecida pelo seu trabalho de edição de tiras cómicas, ter arriscado entrar por outros campos da bd. A edição da derradeira obra de Will Eisner (A Conspiração) e a chegada de Pierre Veys e Nicolas Barral, com Ameaças ao Império, foram as escolhas definidas; veremos o que nos reservam para este ano (veremos, nomeadamente, se haverá alguma coerência na edição de banda desenhada ou se os livros irão surgindo sem grande lógica programática e no esquema ‘fora de colecção’, como tudo indica).
Para além da actividade das editoras com maior vertente comercial, 2005 assistiu
ao regresso à edição da Polvo, agora sob a forma de colecção, ao trabalho filológico (termo que parece estranho ao mundo da bd, mas que faz todo o sentido) da Livros de Papel e a dois lançamentos da MMMNNNRRRG. O volume Borda d’Água / No Tempo das Papoilas, de Miguel Rocha (com uma história reeditada e outra inédita) assinalou o retorno de um projecto editorial sem o qual não é possível traçar a história da banda desenhada portuguesa dos últimos anos e só nos resta esperar que os trabalhos de edição de bd da Polvo e de Rui Brito continuem em força neste novo ano. A Livros de Papel lançou, ao longo do ano, três volumes do clássico O Príncipe Valente, de Harold Foster, numa cuidadosa edição que recupera as pranchas a preto e branco e que, no terceiro tomo (o primeiro, cronologicamente) inclui uma introdução onde se explicam as peripécias editoriais que conduziram a este trabalho. Também a MMMNNNRRRG teve um ano para relembrar: começou com Malus, de Cristopher Webster e acabou com Tribune Brute, um graphzine em serigrafia com assinatura de André Lemos. Longe dos dilemas comerciais da crise e da proliferação de edições sem público à vista, parece que as pequenas editoras continuaram a levar o seu trabalho adiante com toda a calma do mundo e com os critérios centrados no leitor e no objecto livre, mais do que no marketing ou na oportunidade editorial.
No âmbito institucional, a Bedeteca de Lisboa editou o belíssimo catálogo do Salão Lisboa 2005, cheio de informação relevante sobre os autores finlandeses que por cá passaram e com alguns textos memoráveis em torno da cena finlandesa de bd e da entropia, e voltou a dar ânimo à colecção Lx Comics com Metamorfina, de Miguel Mocho e João Sequeira. Do trabalho desenvolvido nos cursos do Centro de Imagem e Técnicas Narrativas da Fundação Calouste Gulbenkian surgiu Memórias 10, um livro colectivo muito equilibrado e com fortes hipóteses de ter revelado alguns autores cujo trabalho poderemos acompanhar futuramente. Mais a sul, em Beja, a (também) Bedeteca trouxe algumas publicações que merecem referência, mesmo que fora do âmbito dos livros: fanzines, folhas informativas e Bófias, de Véte. Na Amadora, acompanhando o XVIII FIBDA e as respectivas exposições, saiu mais um catálogo com edição do CNBDI.
Os jornais e as suas publicações paralelas não foram tão dedicados à nona arte coo em anos anteriores. O destaque neste âmbito vai para a colecção ‘Bd Série Ouro’ do Correio da Manhã, da responsabilidade da Devir e da Panini, nomeadamente pelo seu último volume, Um Homem que Caminha, de Jiro Taniguchi, finalmente disponível em português.
Mesmo antes do fim do ano, a Relógio d’Água fez chegar às livrarias um volume dedicado a Hugo Pratt (O Desejo de Ser Inútil) onde, com o auxílio do diálogo possibilitado pela nobre arte da entrevista, ficamos a conhecer algumas histórias em que o autor de Corto Maltese se confunde amiúde com a sua personagem mais aclamada. Não sei se o ano que se segue vai ser de crise ou de alguma recuperação do mercado editorial de banda desenhada, não sei se a edição vai continuar concentrada na Devir e na Asa, apenas com projectos pontuais a surgirem de outros locais, mas o velho lobo do mar parece-me uma excelente companhia, para essa espera e para as outras.
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