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texto de Marcos Farrajota
Uma análise ao ano de 2007 sem pessimismo não seria uma análise a 2007. A Ficção Científica do século XX sempre gostou de cenários desastrosos para além do Milénio. No que diz à bd portuguesa nem o escritor de FC mais “hardcore” poderia prever tal descalabro – pior que não se editar obras estrangeiras de interesse, pior que o desaparecimento da bd popular, pior que não haver apoios institucionais, é saber que quase não se encontra interesse pela bd nos jovens. E é por isso que no meio independente, o cenário não é muito animador porque pura e simplesmente quase não há “sangue novo” nem uma “nova geração”. O pessimismo dos subtítulos acusa para esse sentido.
They came from… nowhere!?
Antes de mais, 2007 foi caracterizado pela visita a Portugal de uma série de editores independentes da Europa como Roman Maeder (do zine suíço “Milk+Wodka”) e Alberto Corradi (da editora italiana Black Velvet) durante duas Feira Laica, Max (premiado autor e editor da extinta “Nosotros Somos los Muertos”) e Kike Benloch (do colectivo editorial galego Polaqia) durante o Festival de BD de Beja, Ilan Manouach (autor e editor grego), Fábio Zimbres (autor e editor da inesquecível revista brasileira “Animal”) e os Requins Marteaux (editora francesa) durante a BD Amadora, e ainda no fechar do ano os editores do zine espanhol de arte contemporânea “La Más Bela” estiveram na Galeria ZDB. Esta tendência parece que não irá morrer tão cedo, afinal “dois Stripburgers” já visitaram a exposição “Honey Talks” na Bedeteca de Lisboa em Janeiro de 2008. O mundo está mais pequeno ou as viagens de avião são mais baratas?
Não estando errada a segunda sugestão, a resposta mais romântica será um “mundo mais pequeno”, até porque a julgar pelo contínuo crescente número de participações de portugueses em projectos como “Milk+Wodka”, “Barsowia” (da Polaqia), “Glömp”, “Kuti” (ambos da Finlândia), “Golden Age” (Grécia), “Bongolê Bongoró” (Brasil) e no catálogo do festival Komikazen (Itália). Entre Filipe Abranches, Pepedelrey, Paulo Monteiro ou Teresa Câmara Pestana, aquele que mais participou em projectos internacionais foi, sem sombras de dúvida, André Lemos.
Zines are dead!
Parece que a fotocópia já pouco é usada para editar material gráfico, seja para bd ou para ilustração – muito provavelmente porque as novas gerações não querem saber da bd para nada ou andam perdidos na ‘net. E ao que parece, as confusões sobre o que é um fanzine e afins continuam. O caso mais bizarro deste ano foi a Bedeteca de Beja ter aceite o Prémio de Melhor Fanzine do Festival de BD da Amadora para o título “Venham +5”. O “Venham +5” é uma publicação de uma instituição pública (ligada à Câmara Municipal de Beja) - de “fanzine” ou de “zine” parece que tem pouco por definição mas considerando o deserto editorial e sobretudo o típico deserto de ideias do Festival da Amadora que se reflecte no sistema de atribuição dos prémios, não é de admirar que isto aconteça.
Começando pelos projectos de teor profissional (a avaliação é feita pela impressão e tiragem) continuaram projectos como os comics da loja Kingpin of Comics, os livros da Pedranocharco (incluindo o “BDjornal”) ou os desdobráveis “Le Sketch” (editados por Paulo Patrício). A Má Criação prometeu o “Área de Segurança: Gorazde” de Joe Sacco mas até agora não se sabe de nada dessa bênção, digo, edição. A MMMNNNRRRG continuou a sua existência “bruta” com um livro: “Já não há maçãs no Paraíso” de Max Tilmann. Por sua vez a Imprensa Canalha iniciou-se no formato livro com “Babinski” de José Feitor e Luís Henriques. Curiosamente muitas destas edições tiveram boas críticas (no caso de Tilmann foi considerado um dos 20 melhores livros pela revista comercial literária “Os meus livros”) e vendas bastante interessantes para “pequeninos” – num saco editorial vazio é interessante que quem o encha sejam os que sempre foram marginalizados tradicionalmente pelas livrarias e imprensa (especializada ou não).
Passando para os zines, a Imprensa Canalha lançou mais um título, “Animais” de José Feitor, e o projecto “Opuntia Books” de André Lemos mais quatro – dois de Lemos, outros dois de autores estrangeiros, a saber, Sylvain Gerand (também editor do premiado zine “L’Horreur est Humain”) e Mehdi Hercberg. O “Ups!” saiu mais uma vez com banda sonora incluída no espaço virtual: myspace.com/zineups. Marco Mendes editou em parceria “Projecto de fecundar a lua” com Janus e “Carlitos” com Lígia Paz. Tiago Baptista lançou vários títulos que até suspeito que não apanhei todos: “Facada”, “Bolso” e “Cleópatra”. Continuaram “O hábito faz o Monstro” (de Lucas Almeida) e “Shock” (de Estrompa) e iniciou-se o “Fantástico, Michael” - um colectivo de Oeiras.
Indo para os “Fanzines”: continuaram o “Efeméride” (dedicado ao Príncipe Valente com pastiches de vários autores) e “Tertúlia BD’zine” (fanzine da Tertúlia de BD) ambos de Geraldes Lino, “Fandaventuras” (reedição de clássicos) de José Pires e o “Boletim CPBD” (reedição de clássicos e alguns ensaios) do Clube Português de BD. Inesperado foi o décimo número de “Eros” que Geraldes Lino lançou para comemorar o nascimento do projecto há 20 anos apesar de não publicar o zine desde 1991!!! Sim, o fanzine dedica-se à edição de bd erótica com colaborações de vários autores e o chato ainda é a masturbação, digo, discussão do que é erótico e o que é pornográfico passados 20 anos!
Uma surpresa de 2007 foi o ataque feminino nos formatos “indies” como o livro “Postais de Viagem” de Teresa Câmara Pestana (editora do “Gambuzine”) e os inícios de Joana do Paço com o zine “Os músculos não têm para onde ir” e Andreia Rechena com o zine “[R]eject” (que já prepara o segundo número para 2008). A Piggy regressou com o “Enfraskado”, um zine dentro de um frasco – saudades do “Succedâneo”? Estas edições estão longe da condescendência de projectos como “All*girlzine”, lançado em 2006 e com continuidade lenta!
Nobody can hear you scream in deep space
2007 foi o ano de celebração oficial dos 10 anos da Associação Chili Com Carne em que a questão colocada pela própria entidade ficará sempre por responder: «(…) ainda hoje parece-nos inacreditável que uma estrutura como a Associação Chili Com Carne, não só tenha sobrevivido 10 anos, como seja única num Portugal que se rege por 14 distritos - não deveriam haver pelo menos 14 "chilis" no país?» Para uma associação que já provou o seu “profissionalismo”, curiosamente, este ano só editaram um zine em fotocópias para comemorar o aniversário e que foi oferecido como “bilhete” numa festa com concertos Rock e Electrónico. Ainda remodelaram o site entre outras iniciativas que se prolongam até 21 de Abril de 2008 – esperemos que a bd faça parte dos planos.
E se qualquer editor independente já está habituado a escrever, desenhar, editar, promover e comercializar o seu trabalho – a independência obriga a todas estas e outras mil tarefas – só faltava ter de criar o seu próprio espaço comercial. Coisa que a Chili Com Carne conseguiu com a galeria Work’n’Shop e a editora de música electrónica Thisco. A loja Book’n’Shop dedica-se à cultura alternativa sendo que se pode encontrar lá fanzines, zines, edições de autor, edições limitadas, estrangeiras e nacionais num claro acto de desafio a uma cultura oficial cada vez mais competitiva, espectacular e em decadente espiral.
Claramente, que no meio alternativo procura-se conquistar espaços de trabalho e comercialização uma vez que os sítios oficiais parecem cada vez mais fechados a novas ideias. Talvez por isso que em 2007 assistiu-se a quatro eventos da Feira Laica: em Oeiras, no Seixal, na Bedeteca de Lisboa (como de habitual desde 2005) e uma no Natal desta vez no Porto. E ainda houve exposições, ressacas das actividades da Laica no Espaço (2006), na Velha-a-Branca (Braga) e na loja de música Carbono. Em Faro apareceu o Festival P/Artes, ainda em formato experimental mas com um modelo de interesse que inclui lançamento de zines, workshops, exposições, exibição de filmes e concertos.
Famous lust words
Como a cena zinista está a morrer já começam a ser publicadas as primeiras linhas de análise e investigação sobre o assunto – piada de mau gosto?
Aconteceu logo no principio do ano com o livro “Unpopular culture : transforming the European comic book in the 1990’s” do académico canadiano Bart Beaty que analisa a “movida europeia” não faltando referências à Bedeteca de Lisboa ou ao Salão Lisboa mas também às “pérolas” da cena independente como foi o “Mr. Burroughs” (Círculo de Abuso; 2000) de David Soares e Pedro Nora. Seguiu-se o catálogo “Salão Olímpico 2003/06” de José Maia que apanhou uma outra “movida”, ou seja, o movimento artístico do Porto em que os fanzines e a bd têm bastante “tempo de antena” neste grosso volume. Há referências à “A Mosca”, alíngua/”Satélite Internacional”, Janus, A Mula, Senhorio embora de forma bastante fragmentada e incompleta. Por fim, uma pequena provocação no jornal “Cascais Submerso”, ou pelo menos um primeiro levantar de nomes da cena zinista e bedéfila em Cascais, feito por este vosso escriba.
E claro, aquele que ainda teve maior impacto mediático, o programa “Ver BD” de Pedro Moura que passou na RTP2 durante o Verão – que dedicou um dos cinco episódios à edição – com zines incluídos.
Funerais assim até que são divertidos! Zines: RIP (rust in punk).
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