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texto de Nuno Franco
Novo ano, tempo de balanços sobre o ano que findou. Os festivais de BD... Tempo novo mas os vícios, salvo seja (melhor dizer vicissitudes) permanecem os mesmos. Várias razões devem ser tidas em conta mas as conclusões acabam invariavelmente por ser a não consideração do sector da BD com vista a uma política global concertada entre festivais, livreiros e público-leitor, apostando-se apenas em eventos eficazes mas de curto prazo e nada contribuindo para mudanças concretas. É a política somente do número de visitantes.
Comecemos pela Amadora, exemplo acabado do que acaba de ser dito: quando se fala naquele que é o maior evento do género, o Festival Internacional da Amadora, na sua vigésima edição, a percepção é (depois dos anos de ouro na Fábrica da Cultura, e isto disto sem qualquer espécie de nostalgia, e quando os orçamentos permitiam exposições como as dedicadas a “Calvin & Hobbes” ou a “Spirit”) a de um de certo atavismo desde há muito tornado norma: horários nunca cumpridos nas sessões de autógrafos (uma das queixas mais salientadas por parte de quem se desloca à Amadora); o sistemático atraso do programa e do catálogo; estruturas mastodônticas que transitam de ano para ano (e aqui o ataque mais incisivo veio de Machado Dias no blog Kuentro: “A implantação do “carro eléctrico” (onde no ano passado estavam os desgraçados dos autores a darem autógrafos) no meio do excelente espaço de circulação e de convívio, que era em 2007 e 2008 o centro comercial do FIBDA, destruiu completamente uma estrutura funcional e arejada que fornecia uma dinâmica própria ao conjunto”). Longe estamos, como se disse, dos anos em que se podia circular e descobrir o festival e não como costuma acontecer, ficar-se encafuado em soluções pouco práticas de espaço, de circulação e até de arejamento.
Uma vez mais, temos a eterna descentralização. Segundo o autor do blog “notas bedéfilas” (os blogs, substituindo-se a espaços de crítica que praticamente deixaram de existir, são hoje talvez a melhor forma de perceber o estado das coisas), poucos são os que se atrevem a sair do espaço da Falagueira: “Qual Galeria Municipal Artur Bual ou o Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem. A não ser que estejam munidos de um GPS e dotados de uma enorme paciência para andar de um lado para o outro dentro do concelho da Amadora (...)”
Poderão ser pecadilhos menores. O problema é quando se joga em trunfos de última hora para concretizar aquilo que não se consegue durante a semana: afluência de público. Nesse aspecto, nada como a vinda à Amadora, uma vez mais, de Maurício de Sousa, para gáudio da pequenada e do adulto para quem a BD é sinal da pipoca e do “divertimento inócuo” – e sinal que a Amadora não acompanha as movimentações da actual BD, apenas vai com os acontecimentos, deixando-se levar à espera que as três semanas do evento decorram sem sobressaltos de maior. Tudo bem, mas a sensação é não haver qualquer noção de futuro, novos caminhos a traçar.
Pode soar categórico, ou mais, pode soar a irrealismo suicidário mas só um verdadeiro corte poderia criar novas maneiras de ler e ver a actual BD em todas a suas extensões. Mas isso somente no plano teórico. Hoje muitos autores não teriam lugar na Amadora. Um exemplo? A nova geração [já não assim tão nova] de autores francófonos (Frederick Peeters, Blutch) ou editoras independentes europeias (L’Association, Drozophile, L’Atrabile). Não trariam obviamente idêntico número de pessoas à corrida desenfreada ao autógrafos (neste ponto, ironicamente, é pena ninguém publicar em Portugal algumas das BD incluidas na antologia “l'Éprouvette”, da editora L’Association, para se ver a regressividade que pulula em muitos festivais europeus). Para variar, muitos dos autores são inéditos em Portugal, o que também não ajuda. Voltamos então, uma vez mais, a Schuiten, a Boucq (autores qualificados por muitos, num delírio colectivo, como exemplos de “BD adulta”). Tudo autores geracionais com 20 ou 30 anos decorridos sobre a sua publicação em Portugal – dando aqui a perceber o impacto de uma editora como a Meribérica nos gostos do público-leitor.
Por isso, havendo análises e análises, as de Sara Figueiredo Costa, na obra “Almanaque: Festival Internacional de BD da Amadora”, obra feita em parte com base em depoimentos de alguns dos príncipais intervenientes, acabaram por ser um elemento essencial no sentido de perceber o que tem mantido, aquilo que mudou neste últimos 20 anos, como tal, abarcando alguns dos temas acima salientados.
Antes de avançar para as exposições propriamente ditas, esclareça-se um apontamento relativo à temática: o pomposo título de ‘O Grande Vigésimo’, a celebrar os vinte anos do festival, e simultaneamente piscadela-de-olho a Hergé, em nada ajudou a quem tinha de apresentar trabalhos a concurso, caso para dizer: uma resposta errada a um questão pertinente e que só tem equivalente na língua original. Depois outros equívocos. O que dizer da exposição dedicada aos cinquenta anos de Asterix? Uma série de bonecos pífios em pvc sobre os quais nem vale a pena comentar. Não haverá uma razão única para explicar semelhante incoerência; apenas isto: uma pesquisa mais atenta por parte do festival em países como França a Bélgica, teria trazido objectos mais representativos do universo de Goscinny e Uderzo. Depois mais prata da casa: José Garcês. É impressão minha ou esta exposição já andou lá noutros anos?
Ao lado demissionário destes dois últimos exemplos contrapõe-se a aquilo a que poderemos chamar exposições concebidas de raiz como as dedicadas aos portugueses Rui Lacas e Osvaldo Medina (Fórmula da Felicidade e Mucha); a mostra de autores polacos em “Komics”, Lepage em “Muchacho”, “Rei”, de António Jorge Gonçalves. Destaque ainda para os “Israel Sketchbooks”, de Ricardo Cabral e a superlativa mostra de Hector German Oesterheld, no CNBDI (mas, exceptuando um texto ou outro, – como o de João Miguel Lameiras, por exemplo – esperar-se-ia textos mais aprofundados no catálogo assim como traduções mais fidedignas do castelhano).
O “legado” da Amadora não é somente aquilo que se promove. É aquilo que surge em reacção, à margem das grandes tendências. Autores que não se revêm, num plano mais geral, naquilo que é proposto; algo sintomático numa da mostras mais importantes do festival: “Contemporaneidade na Banda Desenhada Portuguesa", comissariada por Pedro Moura.
Julgo importante ver expostos trabalhos de autores, entre outros, de Bruno Borges, Miguel Carneiro, André Lemos, “grupo”, segundo Moura “não obstante a sua aparente ou real diversidade estilística, constroem uma rede coesa de referências, estratégias, interesses e linhas de força”. É certo, podem ser linguagens pouco “acessíveis” para a grande maioria do público visitante mas há uma intensidade nelas, diria, que é genuina (neste ponto, uma pergunta: não seria mais interessante trazer estes autores e os seus trabalhos em fanzines e em obra de auto-edição para os Prémios Nacionais de Banda Desenhada, do que as escolhas serôdias de certos autores, por exemplo, de ilustração?).
Relativamente ao Festival de Beja, na sua quinta edição, as coisas tem se pontuado pela singularidade (nunca ninguém pensou que Beja pudesse ter um festival de BD e isso já, desde há muito, é um ponto ganho) e por um perfil discreto que não tem suscitado reparos de maior. Para já, tal como a Amadora, também Beja tem de apresentar viabilidade, número concretos em relação a entradas, na ligação feita com as escolas do concelho e não só (mas não em número tão grande quanto a Amadora) e na próximidade com Espanha. Nesse aspecto, as suas especificidades (trata-se de um evento que aposta numa certa proximidade entre autores e público presente) mostram um festival em crescendo com iniciativas diversas: ateliers de serigrafia, lançamentos, concertos, sessões de cinema e, novidade, entrega dos troféus Central Comics. Porque é uma cidade pequena, a descentralização acaba por ser um aspecto ganho. Quanto às exposições, deu sinal da presenças de autores dos mais diversos quadrantes– da BD mais mainstream ao sector independente, passando pela presença assídua de autores portugueses : Denis Deprez (Bélgica), Gary Erskine (Escócia), Lorenzo Mattotti (Itália), Craig Thompson (EUA) ou o brasileiro Fernando Gonzales, autor de “Niquel Náusea”, foram alguns dos presentes. Importantes também as mostras de João Maio Pinto e Marco Mendes, autor a ter em atenção. Prova em como os caminhos servem para ser cruzados, criando-se ligações, elos, não se resumindo somente à comitiva lisboeta do primeiro fim-de-semana, mas antes a aproximação feita à população de Beja e arredores.
Do XVI Salão Internacional de Banda Desenhada de Viseu, o único que subsiste a norte do país, não posso falar pois não tive presente. Em destaque, a obra de Pedro Massano, o universo do super heróis, homenagem a Vasco Granja, Daniel Maia, Hugo Teixeira e a nova BD romena.
Se festivais são também lugares de encontro e de novas descobertas – de autores de latítudes pouco conhecidas – e não estruturas fixas, tivemos, numa lógica aqui completamente díspare da Amadora e Beja, a Feira Laica mas mais importante, a mostra “GlömpX”, na Bedeteca de Lisboa entre 9 de Maio a 31 de Julho. Face a impasses que levaram ao fim do Salão Lisboa, “GlömpX” acabou por recuperar o espírito do mesmo numa lógica de corte que extravasa a própria BD, de diálogo com outras ‘media’: patente trabalhos de BD de Sami Aho, Jan Anderzén, Roope Eronen, Jyrki Heikkinen, Reijo Kärkkäinen, Jarno Latva-Nikkola, entre muitos autores finlandeses, em pranchas, instalações, esculpturas, animações publicadas na antologia finlandesa "Glömp".
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