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Adalberto Barreto | ilustração Pedro Zamith
Mais um ano e mais uma análise à pouca investigação publicada em Portugal. Esperemos que com a polémica instalação do MIT na ditosa pátria, aumente também a investigação em banda desenhada.
Tentando simplificar e demarcar aquilo que neste texto entra como investigação, na linha do que foi referido nos textos dos anos anteriores, consideramos como investigação:
1) Trabalhos publicados (comercialmente ou não) em qualquer espécie de suporte;
2) Trabalhos publicados através de qualquer medium narrativo (escrita, banda desenhada, documentário, filme, …);
3) Trabalhos onde ocorram, separada ou cumulativamente, um dos seguintes requisitos:
a) Consulta de outras fontes externas em relação à obra, autor ou assunto principal do trabalho (e.g. a existência de uma bibliografia final é forte indício de se tratar de um trabalho de investigação). Ou seja é necessário que não seja apenas uma opinião ou ensaio sobre…
b) Depoimentos de autores, ou outras testemunhas sobre factos que tragam nova informação ao universo que estamos a analisar;
c) Dados estatísticos, resultantes de entrevistas, questionários ou inquéritos sobre o universo da banda desenhada em qualquer disciplina ou ciência.
d) Trabalhos sobre edições históricas publicadas em Portugal.
LIVROS
Em ano de centenário do mais importante caricaturista e humorista gráfico da história de Portugal – Rafael Bordalo Pinheiro – duas obras foram publicadas para assinalar a efeméride e ambas são um autêntico “regalo para as pupilas” (www.tebeoesfera.com, 2005). A primeira a foi publicada em Março pela Hemeroteca e serve de catálogo da exposição realizada nos Paços do Concelho da CML entre 21 de Março e 24 de Junho. O título é «A rolha : Bordalo» e teve como principais colaboradores Álvaro de Matos (director da Hemeroteca), Joana Balsa Pinho, Marta Nogueira e Paula Borges. A segunda obra «Rafael Bordalo Pinheiro : fotobiogafia» teve como autor e investigador o João Paulo Cotrim. Sendo uma fotobiografia contém inúmeras fotografias da época, mas também reproduz páginas de revistas e algumas ilustrações. Segundo o site supracitado «o trabalho de Cotrim deixa claro, em primeiro lugar, a sua enorme paixão pela banda desenhada e o seu conhecimento apaixonado pela obra de Bordalo Pinheiro».
Destinada a um público alvo generalista, interessado ou com curiosidade sobre a história da BD portuguesa «O roteiro breve da banda desenhada em Portugal» é também um breve regalo para os olhos. Contudo, parece-me que falha na sua primeira metade enquanto livro. E falha porque que não existem ou são poucos os adjectivos. A opinião do autor. O enquadramento das bandas desenhadas que estão a ser descritas com a política, a economia e a sociedade. E sobretudo um enquadramento em que se note prazer de quem escreveu. Penso que por esse motivo quem lê a primeira parte da obra fica com a sensação que está a ler uma lista telefónica. As frases sucedem-se fria e quase mecanicamente mais ou menos com os seguintes elementos: autor – título da obra. revista. datas. editor. formato. autor – título da obra. revista. datas. editor. formato. autor – título da obra. revista. datas. editor. formato…
Parece um dicionário por organizar. Estão lá todos os elementos para constituir o ponto de partida para um bom dicionário de autores, títulos e personagens da BD portuguesa, excepto a separação das entradas, as remissivas e a organização alfabética.
Quanto à segunda metade do livro já se nota um maior entusiasmo do autor. Agora não sei se o problema é meu, que a partir dos anos 70 começo a ler BD pelo que os títulos e os nomes já me são mais familiares e interessantes. Ou se o próprio autor se sente mais à vontade para escrever com emoção a partir dos anos 60.
De qualquer modo, não há bela sem senão, Carlos Pessoa ao ganhar entusiasmo com os adjectivos esqueceu-se de alguns substantivos nomes próprios obrigatórios, como no caso do “Loverboy” que omitiu o argumentista e a BD ficou só com o desenhador.
Em relação à crítica que faço ao livro, não deixo de referir que corro o risco de venire contra factum proprium. Ou seja, é natural que neste texto sobre investigação também caia no mesmo deficit e me entusiasme mais a escrever sobre determinados trabalhos que tive o prazer de ler, do com outros cuja leitura foi um pouco pela diagonal, como o exemplo que se segue…
Publicado originariamente pelas Editions Robert Laffont em 1991 a Relógio d’Água publicou em 2005 «Hugo Pratt : o desejo de ser inútil», mais de 250 páginas de entrevistas a Hugo Pratt conduzidas por Dominique Petiffaux. Muito resumidamente trata-se de um «livro profusamente ilustrado e publicado poucos anos antes da sua morte, e que explora os mistérios da sua vida» (www.bedeteca.com, 2005).
Pela Bedeteca de Lisboa foi publicado o catálogo geral «Salão Lisboa, 2005». Tal como sucede com a revista «Satélite internacional» parece-me que a maior parte dos trabalhos nele incluídos se enquadram mais num registo de ensaio sobre BD contemporânea do que investigação, embora a fronteira entre ambas seja de difícil demarcação.
ARTIGOS
Nesta rubrica, não irei fazer uma análise exaustiva, mas apenas uma selecção dos textos que me pareceram mais relevantes, face também aos critérios expostos no início.
Catálogo do Festival da Amadora
Daniel Barbieri em «Sonhos da China» escreve provavelmente o melhor texto do catálogo. Uma boa mescla sobre Freud e seus discíplos, “onírismo” e a separação das águas (com definições precisas) entre banda desenhada fantástica e onírica. O que pensávamos que é onírico afinal não é. É fantástico!
«O sonho comanda a arte» (Leonardo de Sá) é um texto que aborda com interesse o “sonho” nos primórdios da banda desenhada americana, com uma pequena incursão final na BD europeia e portuguesa. Para além deste texto o autor também escreve um útil artigo biográfico sobre Carlos Alberto Santos.
Do trabalho exaustivo de Pedro Mota, que escreveu cerca de 30 artigos para catálogo do Festival, destaco a pesquisa que efectuou sobre o sonho na BD, pesquisa essa que começa antes de McCay e vai até à BD contemporânea, dividindo o trabalho por áreas geográficas (BD americana, franco belga, de expressão latina, manga e portuguesa). Creio no entanto que a interpretação do tema “o sonho” tenha sido um pouco extensiva demais. Não havia fronteiras para delimitar aquilo que devia ser objecto de análise ou não. Assim encontramos nestes textos considerações sobre a mera ocorrência da palavra “sonho” no título de uma obra, à própria representação icónica do sonho na bd, como a representação de pequenos sonhos de heróis famosos (quanto a mim estas são as partes menos interessantes da investigação), para passarmos à análise de obras onde o sonho, o fantástico são o próprio conteúdo principal da obra (e.g. Sandman, Philémon, etc…), culminando, por último, no sonho biográfico. Na representação dos sonhos. Ou seja no trabalho de autores de banda desenhada que registam regularmente os seus sonhos (sonho não entendido metaforicamente, mas fisicamente). Esta última é a área mais interessante da investigação, daí o destaque para o artigo “Dreamcomics”, com longos depoimentos de Aleksander Zograf e Rick Veitch onde, entre outras informações, os autores nos revelam a adequação perfeita da banda desenhada como meio para representar a experiência do sonho. Destaque também para o artigo biográfico sobre Miguel Rocha, em que para além duma análise exaustiva à obra do Miguel, sobressai também a opinião dele sobre a situação da BD em Portugal.
Muito agradável é a leitura da biografia de «Eduardo Teixeira Coelho» de Geraldes Lino, alguém que escreve sobre a banda desenhada portuguesa com rigor e com a paixão de um adepto de futebol, a título de exemplo atente-se a esta passagem sobre o ETC “…há que sublinhar a espantosa capacidade de trabalho e a rapidez de execução deste exímio esquerdino”.
PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS
Mais um ano e mais um Satélite Internacional. Desta vez os números 4 e 5 onde destaco o texto de Domingos Isabelinho «Ut pictura poesis» que me volta a “baralhar” os conceitos que já estavam arrumadinhos no hemisfério esquerdo do cérebro. Afinal a banda desenhada não tem de ser narrativa. Pode ser uma pura estética estática e a pintura ou a ilustração podem conter (e contêm muitas vezes) narrativa. Os artigos do Pedro Moura, do Paulo Patrício e a entrevista do Nuno Franco com a Anke Futchenberger também merecem um destaque.
Em Abril de 2005 saiu nas bancas um novo periódico generalista de divulgação da banda desenhada. Trata-se do BD Jornal que já vai n.º 9 um jornal que resulta sobretudo do esforço e da dedicação do seu director J. Machado Dias.
Também em 2005 saíram 4 números do «Boletim do Clube Português de Banda Desenhada». Destes números o destaque vai para o assinalável estudo sobre a revista espanhola “Chicos” (homóloga da portuguesa Mosquito) por Fernando Cardoso com um notável enquadramento histórico do franquismo e da guerra civil espanhola, bem como o trabalho dedicado ao herói Adam Strange que inclui a longa história do personagem por Paulo Duarte.
INTERNET
Na Internet os destaques vão para o XII Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto (www.sibdp.com), que regressou em 2005 com um Salão Virtual. Em princípio esta nota não seria digna de destaque neste espaço sobre a investigação, contudo dada a quantidade de informação histórica disponível no site não podíamos deixar em branco. Para além do salão há que assinalar o Weblogue «Mania dos Quadradinhos» (http://quadradinhos.blogspot.com/) um autêntico repositório de informação sobre os quadradinhos (nacionais e estrangeiros) clássicos esquecidos. Em queda livre regista-se a investigação no site Centralcomics que agora é, cada vez mais, um espaço comercial em linha.
TESES ACADÉMICAS,
Não temos notícia da conclusão de nenhuma tese sobre banda desenhada. Está, no entanto em curso, no Departamento de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa uma tese de Mestrado em Filosofia Estética intitulada «A memória na banda desenhada». Um estudo que incide sobre o trabalho de um grupo de autores franceses contemporâneos, coordenado por Maria Filomena Molder e Jan Baetens. O mestrando é o Pedro Moura.
CONCLUSÕES:
Num mercado como o português a investigação é sempre tão escassa que nem se pode falar em crise. Noutros mercados mais competitivos são as próprias editoras privadas que publicam a grande maioria dos trabalhos de investigação. Em Portugal isso não acontece. No ano de 2004 a ASA ainda se aventurou no mercado com um livro dedicado ao Vasco Granja. Mas este ano não houve nada. A ASA e a Devir, as editoras sobreviventes do boom editorial de há uns anos para cá não publicam absolutamente nada neste domínio. Salvou-se a Relógio de Água com a tradução de uma obra publicada em França em 1991 de investigação sobre um grande autor italiano e a Assírio e Alvim (com a indispensável ajuda de patrocínios públicos) com a fotobiografia do Rafael Bordalo Pinheiro. De resto os catálogos dos Salões de Lisboa e da Amadora, O breve roteiro da BD e o Catálogo do Bordalo : a rolha têm todos por trás a chancela editorial de entidades públicas.
Um quadro comparativo mostra-nos a quantidade de monografias publicadas em Portugal sobre banda desenhada, nos últimos 6 anos.
2000 – 7
2001 – 5
2002 – 4
2003 – 3
2004 – 6
2005 – 4
É assim que as coisas têm andado. Num país onde as pessoas lêem pouco. Lêem ainda menos banda desenhada, é normal que não exista grande interesse por este tipo de edições. Salve-se a abertura da nova Biblioteca da Bedeteca que em duas frentes distintas criou, por um lado, um novo espaço de preservação de obras raras para os investigadores (centro de documentação) e, por outro, um espaço de promoção da leitura de obras recentes (biblioteca de banda desenhada). Sejam muito bem vindos!...
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BIBLIOGRAFIA DA INVESTIGAÇÃO PUBLICADA EM PORTUGAL, 2005
BARBIERI, Daniel – Sonhos da china: o onírico e o fantástico na literatura aos quadradinhos. // In: BD Amadora 2005. Amadora: Câmara Municipal, 2005. P. 30-35
BD JORNAL [Publicação periódica]. Dir. J. Machado Dias. Lisboa: Pedranocharco, 2005 . N.º 1-8
BOLETIM DO CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA [Publicação periódica]. Dir. Paulo Duarte. Lisboa: CPBD, 2005. N.º 110-113
COTRIM, João Paulo – Rafael Bordalo Pinheiro: fotobiografia. Lisboa: Assírio e Alvim, 2005.
LINO, Geraldes – Eduardo Teixeira Coelho, um clássico da banda desenhada. // In: BD Amadora 2005. Amadora: Câmara Municipal, 2005. P. 113-119
LISBOA. Câmara Municipal. Hemeroteca – A rolha: Bordalo. Lisboa: Hemeroteca Municipal, cop. 2005. ISBN: 972-8695-27-6
LISBOA. Câmara Municipal. Bedeteca – Salão Lisboa, 2005. Lisboa: bedeteca, 2005. ISBN: 972-8487-72-X
MOTA, Pedro – Dreamcomics. // In: BD Amadora 2005. Amadora: Câmara Municipal, 2005. P. 90-94
MOTA, Pedro – Miguel Rocha. // In: BD Amadora 2005. Amadora: Câmara Municipal, 2005. P. 90-94
PESSOA, Carlos – Roteiro breve da banda desenhada em Portugal. [S.l.] : CTT, 2005. ISBN: 972-9127-94-8
PRATT, Hugo; PETIFFAUX, Dominique – O desejo de ser inútil. Lisboa: Relógio d’Água, 2005. ISBN: 972-708-860-0
REZENDES – Mania dos quadradinhos [Em linha]. [Consult. a 27 de Jan. 2006]. Disponível em: http://quadradinhos.blogspot.com/
SÁ, Leonardo de – O sonho comanda a arte. In: BD Amadora 2005. Amadora: Câmara Municipal, 2005. P. 51-58
SATÉLITE INTERNACIONAL [Publicação periódica]. Dir. Colectivo A Língua. Porto: A Língua, 2005. N.º 5
XII SALÃO INTERNACIONAL DE BANDA DESENHADA DO PORTO [Em linha]. [Consult. a 27 de Jan. 2006]. Disponível em: www.sibdp.com
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