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texto de Sara Figueiredo Costa
Ponto prévio: estas não são as águas onde costumo mover-me. O aviso é necessário porque, estando mais à vontade no acompanhamento da edição de banda desenhada em Portugal do que da investigação que por cá se vai fazendo, é muito possível que me tenham escapado elementos importantes.
Feito o ponto prévio, importa esclarecer algumas ideias. O termo ‘investigação’, normalmente identificado com a vertente académica de um trabalho rigoroso e ponderado, será aqui assumido num contexto mais lato, como aliás têm sido norma nesta secção do Dossier da Bedeteca, remetendo para os trabalhos de índole académica, mas também para as publicações que fogem da crítica ou que desenvolvem um trabalho para além desta (acrescentando-lhe algo ou ficando além dos seus propósitos, conforme os casos), para trabalhos em suportes diferentes dos tradicionais ou para textos incluídos em publicações várias onde o trabalho de pesquisa, mesmo que em níveis diversos, surge de algum modo. De resto, seguiremos a estrutura que Adalberto Barreto vinha definindo nos dossiers anteriores e que reúne as condições de funcionalidade e clareza para que percebamos todos do que se fala.
Começando pelos trabalhos académicos, e reincidindo na conclusão do dossier do ano passado, não se encontraram registos de teses de mestrado ou doutoramento no catálogo DiTeD da Biblioteca Nacional. Nada de novo, portanto, neste capítulo.
O Festival Internacional de BD da Amadora realizou a sua décima oitava edição, dedicada ao tema da ‘maioridade’. Como têm sido norma, editou-se um catálogo do Festival, com textos relativos aos autores e às exposições. Embora uma parte dos textos se resuma à mera informação biobibliográfica dos autores presentes, alguns textos procuraram desenvolver uma reflexão sobre as obras expostas, apontando linhas de leitura, explorando abordagens interpretativas e críticas ou, como no caso de Leonardo de Sá, desvendando novas informações sobre a história da banda desenhada portuguesa, concretamente sobre a vida de António Cardoso Lopes, cujo centenário foi comemorado no Festival.
A terceira edição do Festival Internacional de BD de Beja, uma verdadeira instituição na área, apesar da sua pouca idade, e sobretudo uma instituição que não se acomoda ao que vende ou ao que parece mais fácil (primando por uma programação que procura satisfazer diferentes públicos de modo rigoroso), foi acompanhada pela edição de um pequeno catálogo, o Splaft!. Os textos, assinados por uma mão cheia de colaboradores, acompanharam as exposições com algumas informações de ordem bibliográfica e sobretudo com propostas de leitura.
A revista Vértice, histórica publicação na área das humanidades, continuou a abrir as suas páginas à reflexão sobre a banda desenhada. Nos cinco números que saíram em 2007, duas colaborações remeteram para o assunto: no número 134, assinei (e desculpem a auto-referência...) um texto sobre a banda desenhada galega, a propósito da exposição retrospectiva que a Fundación Feima idealizou e a Bedeteca de Lisboa acolheu; no número seguinte, Pedro Moura escreveu sobre o livro de Ana Bravo, A Invisibilidade do Género Feminino em Tintim, lançando vários tópicos para uma discussão ainda em aberto.
Entre Julho e Agosto, a RTP2 transmitiu o programa Ver BD, da autoria de Pedro Moura e Paulo Seabra. Foram cinco episódios onde se traçou um percurso pela história da banda desenhada portuguesa e se acompanharam as várias vertentes da produção contemporânea através do trabalho e das reflexões de onze dos seus autores, entre outros convidados igualmente pertinentes para a apreensão do actual momento da banda desenhada portuguesa.
O programa, de algum modo reflexo do trabalho mais amplo de crítica e investigação em torno da banda desenhada que Pedro Moura continua a desenvolver no seu blog Ler BD, teve algum eco na imprensa e poderá, esperamos, ter chegado a públicos alheios ao núcleo habitual de leitores de banda desenhada.
Dois livros se destacaram este ano, no âmbito da investigação em torno da banda desenhada. Na sequência da edição de 2006 do Prémio Stuart, atribuído a André Carrilho, a Assírio e Alvim editou O Rosto do Alpinista – André Carrilho, de João Paulo Cotrim, sobre o trabalho do ilustrador português mais requisitado no estrangeiro. No âmbito académico, Ana Bravo viu a sua tese de mestrado, A Invisibilidade do Género Feminino em Tintim, editada pela Chronos.
Fora do âmbito restrito da banda desenhada, mas abarcando-a num plano de intersecção de várias expressões e meios, importa referir ainda a publicação do livro Salão Olímpico 2003-2006, com edição partilhada pela Fundação de Serralves e o Centro Cultural de Vila Flor, onde se reúnem textos em torno do projecto multidisciplinar que a sala de bilhares portuense Salão Olímpico acolheu ao longo de três anos.
O BD Jornal prosseguiu o seu trabalho, agora em formato de revista, assegurando, para além da publicação de banda desenhada propriamente dita, uma diversidade de textos e notícias notável. Recensões a livros e revistas, novidades sobre publicações, exposições e outros eventos, crónicas em torno do meio da bd – com José Carlos Fernandes a revelar os seus dotes de escriba atento –, reportagens sobre os principais acontecimento nacionais e internacionais da área são alguns dos conteúdos que continuam a assegurar a vitalidade da única publicação portuguesa regular e com distribuição alargada dedicada à banda desenhada. Que prossiga em 2008!
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