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Público, 28 de Janeiro de 2004

Desenhos Científicos Mostrados em Lisboa

Teresa Firmino

Logo à entrada, os olhos deparam com o desenho de um dos cogumelos mais vistosos - o amanita-mata-moscas ou, segundo o nome científico, o "Amanita muscaria", que tem o chapéu encarnado com pintas brancas. Ao lado estão dois exemplares da borboleta do medronheiro, ou "Charaxes jasius", que vive nos medronhais e é a maior borboleta de Portugal, chegando a ter oito centímetros de envergadura. Perto dali, também pendurados nas paredes da Hemeroteca Municipal de Lisboa, distribuem-se mais desenhos de outros autores portugueses. Mas a honra de abrir a exposição "A Ilustração Científica em Portugal", até ao fim de Fevereiro e cuja entrada é gratuita, cabe mesmo a Alfredo da Conceição, o autor do amanita-mata-moscas e da borboleta do medronheiro, que é considerado o grande ilustrador científico português do século XX.

A honra não passou despercebida a Alfredo da Conceição, que esteve na inauguração da exposição, na semana passada. O decano dos ilustradores portugueses desenhou desde as décadas de 40 até à de 90. Pela parede sucedem-se, depois, os desenhos de outros nove ilustradores portugueses. José Projecto, Pedro Salgado, Marcos Oliveira, Nuno Farinha, Fernando Correia, Daniel Müller (que trabalha com a sua mulher, a norte-americana Joanne Haderer), Marco Correia, Pedro Segurado e Rafael Matias.

Todos são muito mais novos que Alfredo da Conceição, andam na casa dos 20, 30, 40 anos de idade. Fazem parte de uma geração que começou a formar-se e a trabalhar nos anos 90, impulsionada por Pedro Salgado, que foi para os Estados Unidos estudar ilustração científica e depois começou a dar os primeiros cursos em Portugal a partir de 1990. Antes, não havia ninguém que ensinasse a aliar a ciência à arte.

Animais, plantas e partes do interior do corpo humano é o que pode ver-se na hemeroteca. O lince ibérico e o tigre-de-bengala, da autoria de José Projecto, podiam assustar. Mas não, são só desenhos destas feras. O mesmo podia dizer-se do lobo ibérico, de Marcos Oliveira, ou da cobra-de-escada, com a língua bifurcada de fora, a cheirar a presa, da autoria de Fernando Correia.

A santola avermelhada, de Nuno Farinha, parece verdadeira. O dragão-marinho, de Pedro Salgado, fascina pelo aspecto frágil. Para dar outros exemplos de trabalhos expostos, há ainda um encantador cavalo-marinho, de Marco Correia, ou, de Daniel Müller, as entranhas do sistema digestivo.

Ao pé de cada autor há sempre uma vitrina com revistas e livros abertos (alguns nas páginas com escaravelhos de Moçambique, ilustrados por Alfredo da Conceição, que muitos consideram extraordinários), folhas de jornais, fascículos, postais ou selos. Tudo publicações em que os vários autores viram trabalhos seus publicados, e daí a razão por que a hemeroteca, local onde se arquivam publicações periódicas, decidiu fazer esta exposição.

De dois em dois meses, é proposto um tema para ser alvo de exposições pela rede de bibliotecas. O tema de Janeiro e Fevereiro é a criatividade. "Como esta é uma biblioteca municipal cujo espólio são jornais e revistas, não íamos expor quadros sem sentido. Tudo o que fazemos tem a ver com o espólio. Como a ilustração científica é criatividade e arte e está publicada em jornais e revistas, escolhemos este tema", diz a historiadora Graça Afonso, da hemeroteca. "Foi uma forma de mostrar jornais com excelentes obras de arte imprensas."

Depois de passar os olhos pelos desenhos, no dia da inauguração, foi a vez de ouvir os testemunhos dos ilustradores sobre a sua profissão. Alfredo da Conceição foi o primeiro a ter a palavra. "Eu não sou biólogo", esclareceu logo.

A declaração tem razão de ser. Quase todos os que se dedicam hoje em Portugal à ilustração científica são biólogos, à excepção de José Projecto, Marcos Oliveira e Marco Correia. "Fui para litógrafo. Isto na primeira metade do século passado. Já sou muito velho", continuou Alfredo da Conceição. Mais tarde, apareceu uma oportunidade de ir para África, e foi, para fazer desenho cartográfico. "Aí começou a minha vida em cheio, com a natureza dita selvagem."

Também José Projecto disse não ter tido formação científica. "Fui sempre mais ligado às artes plásticas, não me preocupa tanto o rigor científico. Dedico-me à conservação da natureza." Uma ideia partilhada por Marcos Oliveira, que desde criança sonhava em ganhar a vida a desenhar animais: "Gosto de pensar que este trabalho tem importância para um grande objectivo, que é a conservação da natureza. O nosso trabalho, ilustrando animais e plantas, é fundamental." Estudou história da arte, mas não isso não o deteve. "Tenho-me esforçado, lido imensas coisas."

José Projecto também falou de dificuldades. "É uma vida profissional difícil. É preciso procurar mercado. As entidades sensibilizadas são muito poucas, a maior parte de nós trabalha para o Estado", contou o ilustrador, que começou essa vida a desenhar aves.

Nem todos se dedicam a representar animais e plantas. Daniel Müller especializou-se na ilustração médica, fazendo mesmo um mestrado na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, nos EUA. "É uma área pouco divulgada em Portugal", disse Müller, que gosta mesmo é da ilustração cirúrgica. "É a que dá mais gozo. É a adrenalina de estar na sala de cirurgia."

A ilustração mudou muito desde os tempos de Alfredo da Conceição, como é exemplificado por Fernando Coreia e Nuno Farinha, que trabalham em parceria. Mostraram como, passo a passo, se faz um desenho no computador, que é uma preciosa ajuda. Pode começar-se à mão e depois dar-lhe os retoques no computador, ou começar aí e finalizá-la à mão. A ilustração científica digital é o futuro? "De acordo com a voracidade de informação que é preciso produzir, este será o futuro", vaticinou Fernando Correia.

Copyright: © 2004 Público, Teresa Firmino

     
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