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 Diário de Notícias, 16 de Fevereiro de 2004
Os desenhos do jazz
João Miguel Tavares
A colecção BD Jazz, criada pela editora francesa Nocturne, tem a curiosidade de juntar num mesmo produto duas artes que têm uma misteriosa afinidade. Os primeiros dez volumes onde as pranchas desenhadas se uniam às notas improvisadas chegaram a Portugal em Setembro do ano passado. Agora estão disponíveis mais oito caixas, de Anita O'Day a Count Basie, faltando apenas dois volumes (Glenn Miller e Miles Davis, que devem chegar em Março) para a colecção ficar completa. Esta segunda fornada tem, para os leitores e ouvintes nacionais, uma curiosidade particular: o português Pedro Zamith é o autor da BD que acompanha a caixa de Frank Sinatra.
A colecção nasceu de um concurso realizado em 2002, ao qual concorreram 750 desenhadores, a esmagadora maioria dos quais ilustres desconhecidos. (Melhoramento significativo desta leva de edições: passou a ser incluído um pequeno texto de apresentação do autor que assina a BD.) Desse grupo foram escolhidos os que viriam a ilustrar as 20 caixas que compõem a colecção, com uma banda desenhada inédita de 16 pranchas, em língua francesa (saliente-se que as caixas são importadas e, portanto, mantêm a língua original), sobre o músico em apreço. Este segundo grupo, em termos qualitativos, é ligeiramente inferior ao anterior, mas ainda assim há boas surpresas, mesmo que o desempenho de Zamith não se encontre entre os mais brilhantes do conjunto (o seu traço deformado tem impacto e uma forte identidade, mas a história do jovem Frank Sinatra e do fascínio que já então exercia na América é pouco conseguida).
Entre os trabalhos mais bem elaborados vale a pena destacar o Count Basie de Michel Conversin. Conversin, 48 anos, é o autor veterano num grupo extraordinariamente jovem (a maior parte dos autores anda na casa dos 20), e o único que assina dois livros (foi também o responsável pela biografia de Erroll Garner, no sétimo volume). Dotado de um traço seguro e rico, adaptou-se na perfeição ao formato alongado das páginas e demonstra uma grande intimidade com a música de Basie. Conversin consegue ser simultaneamente divertido e informativo, resistindo àquela que parece ser a tentação dos autores mais jovens: embarcar numa abordagem ou demasiada abstracta - foi essa, por exemplo, a opção de Jérémy Soudant na leitura de Stan Getz, onde os traços do saxofone ganham vida e se multiplicam em várias formas - ou demasiado centrada num fait-divers - como acontece com Kerascoët na homenagem a Anita O'Day ou com Grégory Elbaz no tributo a Oscar Peterson.
A ter que escolher uma ou duas destas caixas, as melhores opções são o citado Count Basie, ou então o óptimo Art Tatum, ilustrado por Frédérik Salsedo. E por mais do que uma razão: não só o trabalho gráfico de Salsedo se destaca pela qualidade e pela inventividade da planificação, como a espantosa música de Tatum merece toda a dedicação de que os nossos ouvidos sejam capazes. Convém recordar, a este propósito, que por questões de pagamento dos direitos autorais as gravações incluídas nas caixas foram todas realizadas antes de 1953 - e Tatum é um dos músicos deste conjunto que já tinha registado o melhor da sua arte até essa altura. Pelo seu rigor e pela sua imaginação, a Colecção BD Jazz merece alcançar o melhor acolhimento por parte de leitores e ouvintes.
Copyright: © 2004 Diário de Notícias; João Miguel Tavares
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