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 Público, 7 de Março de 2004
"Mangamania" é um sucesso planetário
Carlos Pessoa
A edição francesa de banda desenhada continua a registar uma saúde invejável, com taxas de crescimento anual na ordem dos dois dígitos. Foi assim na última década e o ano de 2003 não fugiu à regra: mais de duas mil novas edições, asseguradas por mais de 180 editores, responsáveis por um aumento do volume de vendas em 10 por cento. Este óptimo desempenho tem um senão: a BD tradicional só aumentou as suas vendas em dois por cento - este valor é idêntico ao da edição geral em língua francesa -, enquanto as mangas registaram um astronómico crescimento de 75 por cento, só no período de Janeiro a Outubro de 2003. Grandes editores de quadradinhos, como a Dargaud e a Glénat, devem muito dos seus excelentes resultados aos heróis nipónicos, alimentando colecções ou mesmo unidades editoriais específicas.
O "boom" da edição de mangas não é um fenómeno especificamente francês - em Espanha, por exemplo, aconteceu o mesmo, embora o facto seja pouco conhecido do lado de cá da fronteira -, nem se confina aos territórios tradicionais dos quadradinhos. Prolonga-se nos jogos vídeo, na televisão e na animação, dando origem ao fenómeno conhecido por "Japanimation". Este movimento surgiu em meados da década de 70 e prolonga-se até aos nossos dias, gerando receitas superiores a 200 mil milhões de ienes (1,5 mil milhões de euros), segundo os últimos dados publicados pela agência de publicidade japonesa Dentsu.
O ponto de partida é sempre a BD. Depois, se esta tem um êxito acima da média, as imagens saltam do papel para o ecrã, invadindo as salas de cinema e as televisões, onde são consumidos por uma legião incalculável de admiradores e fanáticos. Com 60 por cento do mercado mundial, a "Japanimation" regista um sucesso planetário nunca antes visto. O crescimento do mercado de DVD e grandes sucessos como "Viagem de Chihiro" (realizado por Hayao Miyazaki, Urso de Ouro no festival de Berlim de 2002) ou "Ghost in the Shell 1", de Mamoru Oshii (mais de um milhão de DVDs vendidos no estrangeiro) ajudam à festa. Para este ano, está prevista a estreia de produções com dois heróis míticos das mangas, Dragon Ball e Astro Boy, adaptados por estúdios de Hollywood.
"Mangamania" mobiliza milhares
Outro vector importante da "mangamania" é a realização de feiras anuais em diversos países europeus - com afluência de muitos milhares de pessoas -, onde a oferta de edições se conjuga com os concertos, as conferências de autores convidados e as "cosplays" (desfiles de jovens vestidos à moda dos seus heróis favoritos) - em 2002, por exemplo, mais de 40 mil pessoas deslocaram-se durante dois dias ao Palácio de Congressos da Porte Maillot, em Paris.
Por maiores que sejam as tiragens ou a quantidade de pessoas mobilizadas nestes grandes eventos, nada são quando comparadas com os números registados no Japão. Publicam-se semanalmente milhares de revistas, omnipresentes nos cafés, nas lojas de aluguer de vídeos e mangas, nos quiosques e nas máquinas automáticas, com tiragens acumuladas de muitas centenas de milhões de exemplares. Um "best-seller" é uma publicação com cinco ou mais milhões de exemplares semanais, gerando uma quantidade de histórias que podem ser realizadas durante anos sem quebra de vendas. Este interesse pelas mangas explica-se em grande medida pelo alto nível de literacia da população japonesa, que consome produtos culturais de forma inigualada em qualquer outro país do mundo. Só para se ter uma ordem de grandeza dos hábitos dos japoneses, basta referir que os dois principais jornais diários de Tóquio registam tiragens superiores a 10 milhões de exemplares por dia...
O principal suporte de edição de BD japonesa são as revistas, de pequeno formato, papel de má qualidade e impressas em cores diferentes. Cada exemplar inclui entre 15 e 20 histórias distintas, em capítulos, com uma estrutura narrativa em que as onomatopeias desempenham um papel muito relevante e os textos são reduzidos ao mínimo. O mercado é muito segmentado, com os títulos dirigidos a públicos específicos (raparigas ou rapazes, homens ou mulheres, etc.). E os temas são os de qualquer outra parte do mundo: temas sentimentais para as adolescentes, desportos nas mangas para rapazes, aventuras, ficção científica, policial, humor, sem esquecer os temas de guerra, violência e sexo (a representação dos órgãos sexuais é muito "sublimada"). As histórias lêem-se da (nossa) contracapa para a capa e da direita para a esquerda.
Copyright: © 2004 Público; Carlos Pessoa
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