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Diário de Notícias, 8 de Março de 2004

O regresso ao oeste

João Miguel Tavares

Veterano da BD franco-belga, autor de dezenas de álbuns, um dos melhores desenhadores do mundo, Hermann está finalmente a ter entre nós a atenção que merece. Com 65 anos de idade, há muito que ele faz parte da história dos quadradinhos, mas a sua obra só começou a ser devidamente publicada em Portugal desde que os direitos foram adquiridos pela Vitamina BD. Em pouco mais de dois anos, já saíram para as livrarias sete títulos do autor belga, desde volumes das séries Jeremiah e Bois-Maury até aos álbuns individuais, escritos a solo ou em colaboração com o seu filho, Yves H.
Antes disso, Hermann havia sido tanto publicado como maltratado. Na Bertrand e na Meribérica, encontramo-lo como desenhador de Bernard Prince, de Comanche, de Jeremiah, de As Torres de Bois-Maury, mas todas essas séries ficaram pelo caminho, frustrando os leitores portugueses e impedindo-os de tomar consciência da dimensão gigantesca do seu trabalho. Em casos como os de Bois-Maury, retrato violentíssimo da Idade Média em dez volumes cuidadosamente planeados, a não publicação da totalidade da série foi um pequeno atentado cultural, já que se trata de um dos grandes empreendimentos da BD mainstream franco-belga das décadas de 80 e 90. (Entretanto, a história dos Bois-Maury continuou, mas em moldes inteiramente diferentes.)
Convém admitir, no entanto, que Hermann é um homem da indústria: produz muito e, por isso, a sua obra é desequilibrada. Não em termos gráficos, onde o seu virtuosismo é praticamente inigualável, sobretudo desde que começou a aplicar directamente a cor, mas ao nível das histórias, ainda que mantendo sempre uma qualidade aceitável. Infelizmente, a generosidade paterna conduziu-o, nos últimos anos, a várias colaborações com Yves H. (em breve será lançado mais uma parceria, Zhong Guo), nem sempre inspiradas. Hoje em dia ele trabalha melhor a solo - é nos álbuns em que Hermann assume o desenho e o texto que encontramos a melhor produção da última década, como é o caso de Caatinga, recentemente publicado em Portugal, ou do álbum de que aqui se fala, Mataram Wild Bill (que embora já tivesse saído em fascículos na extinta Selecções BD nunca havia sido editado em livro).
Sejamos claros: o universo criativo onde o autor belga se move não é muito variado. Trabalhe ele nos ambientes da Idade Média, no Oeste, no mundo contemporâneo, ou no futuro pós-apocalíptico de Jeremiah, a temática é quase sempre a mesma - histórias de vingança, personagens solitárias em busca da redenção - tal como a abordagem, invariavelmente realista e agressiva. Mas essa repetição não deve ser encarada como uma limitação, porque faz parte, afinal, das suas marcas autorais. Em cada álbum de Hermann há um sabor que se reconhece de leituras anteriores, e é isso que confere consistência à sua vasta obra.
Veja-se o caso de Mataram Wild Bill. Tal como em Caatinga, estamos perante um jovem marcado pela morte: após assistir ao massacre da família e da rapariga que amava, Melvin decide fazer justiça pelas próprias mãos, iniciando uma longa gesta até encontrar os responsáveis pelo crime. O Wild Bill do título é apenas uma referência indirecta (nunca o chegamos a ver), mas engenhosa: o assassínio da família de Melvin ocorre na mesma cidade e no mesmo dia em que o famoso xerife Wild Bill Hickcok é morto. Desaparecido o xerife, não há como recorrer à justiça - e o jovem vê-se obrigado a assumir a vingança.
Para lá de mais um maravilhoso trabalho gráfico, que no caso de Hermann é sempre um dado adquirido, a excelência deste livro deve-se ao facto de o autor belga estar de regresso ao seu terreno de eleição. É bom lembrar que, juntamente com Greg, Hermann foi o responsável por Comanche, um dos melhores westerns em BD de todos os tempos, parcialmente editado em Portugal e que ainda hoje não tem o reconhecimento que merece. Isto porque nem os episódios clássicos de Jerry Spring nem as mais ambiciosas aventuras de Blueberry têm a complexidade existencial e o negrume de obras como Os Lobos do Wyoming ou O Céu Está Vermelho sobre Laramie. Red Dust, o herói atormentado, é uma personagem inesquecível, e há um pouco desse seu desamparo em Mataram Wild Bill. Lá está: Hermann vai reciclando o passado, reelaborando a partir do seu fundo de catálogo, com algumas injecções de novidade. Pode parecer pouco, mas, na verdade, é uma fórmula vencedora.

A FICHA
Mataram Wild Bill
Autor: Hermann
Editora: Vitamina BD
Páginas: 56
Género: Banda desenhada
Preço: €12,50
Classificação: ****

Copyright: © 2004 Diário de Notícias; João Miguel Tavares

     
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