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 Diário de Notícias, 15 de Março de 2004
O livro mais amado
João Miguel Tavares
Projecto ambicioso da autoria do argumentista francês Frank Giroud, O Decálogo impôs-se no mercado franco-belga como uma das mais bem sucedidas séries de BD dos últimos tempos, e a sua publicação entre nós, assumida pela Asa há menos de dois anos, prossegue em excelente ritmo. Recentemente chegaram às livrarias o quinto e o sexto volumes da série, respectivamente intitulados A Vingança e A Troca.
A série, que como o próprio nome indica é constituída por dez tomos, tem no centro da acção um livro misterioso, Nahik, desejado por bibliófilos de todo o mundo e de todas as eras, já que se diz encerrar em si um decálogo islâmico escrito pela mão do próprio profeta. É este livro que serve como fio de condutor da série de Giroud, ainda que ele verdadeiramente nunca assuma o protagonismo - o livro que todos procuram é, sobretudo, o pano de fundo onde se desenrolam os episódios particulares, escritos para poderem ser lidos de forma independente mas estabelecendo ligações entre si.
Aliás, são mais do que meras «ligações»: a mecânica de O Decálogo consiste numa narrativa contada de frente para trás, partindo do mundo contemporâneo em direcção à fonte do Nahik. O quinto tomo passa-se nas décadas de 10 e 20 do século passado, enquanto o sexto decorre entre os finais do século XIX e os primeiros anos do século XX. Claro está que essa travessia temporal é uma excelente desculpa para abordar alguns momentos historicamente importantes - ou não fosse História a formação original de Giroud - como é o caso, só para dar um exemplo retirado de A Vingança, do massacre dos arménios.
Não é, realmente, um processo novo para o argumentista francês, como se pode constatar na série Luís Má-Sorte, desenhada pelo falecido Jean-Paul Dethorey e que a Meribérica tem vindo a publicar em Portugal, onde se percorrem vários momentos marcantes da primeira metade do século XX. A diferença essencial de O Decálogo em relação a Luís Má-Sorte está na complexidade do projecto e na ausência de um herói - a empatia com o leitor tem de ser conseguida volume a volume.
Giroud, como indicam os números de vendas em França, conseguiu essa empatia, mesmo que nenhum dos álbuns publicados até agora possa ser considerado uma obra-prima da BD. E isto por duas razões. Em primeiro lugar, porque a ideia geral da série é bastante melhor do que a sua concretização em cada episódio (o que significa que é importante lê-la na totalidade para apreciar as suas qualidades). Em segundo lugar, porque a aposta num desenhador diferente para cada um dos dez livros poderia ser óptima se os desenhadores convidados fossem muito bons - o que não acontece. Com as honrosas excepções de Giulio De Vita (segundo volume) e de Tomaz Lavric (quarto volume), eles são pouco mais do que medianos, o que fragiliza a série (no caso em apreço, Bruno Rocco ou o experiente Alain Mounier limitam-se a cumprir os mínimos). Tivesse O Decálogo caído na mão de artistas com um verdadeiro talento gráfico, e o que é apenas bom saltaria para uma outra dimensão.
A FICHA
Decálogo VI
Autor: Frank Giroud e Alain Mounier
Editora: Asa
Páginas: 64
Preço: € 15,50
Classificação: ***
A FICHA
Decálogo V
Autor: Frank Giroud e Bruno Rocco
Editora: Asa
Páginas: 56
Preço: € 15,50
Classificação: ***
Copyright: © 2004 Diário de Notícias; João Miguel Tavares
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