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Diário de Notícias, 22 de Março de 2004

A Palestina de Joe Sacco

João Miguel Tavares

A publicação de Palestina é um dos grandes momentos da banda desenhada e do jornalismo americano da década de 90. Pela primeira vez, um repórter utilizava a BD como meio para fazer reportagem de guerra, investindo o seu enorme talento gráfico na descrição de uma das mais atormentadas regiões do planeta. A Palestina de Joe Sacco é um lugar atravessado por dor e tristeza, mas como nas melhores obras de arte, o sofrimento acaba por inspirar um trabalho belíssimo, justamente premiado com o American Book Award em 1996.

Desde Maus - a obra-prima de Art Spiegelman sobre o Holocausto e os reflexos que ele teve na sua vida familiar - que a banda desenhada não era tão valorizada junto do público e da crítica generalista. Palestina é um dos raros casos em que a BD conseguiu saltar as fronteiras do género, conquistando um vasto leque de leitores. Para este retrato da Primeira Intifada, Sacco, jornalista de formação, passou dois meses nos Territórios Ocupados no Inverno de 1991/92, tendo iniciado a publicação das reportagens em fascículos em 1993 (foi a sua compilação em livro, contudo, que valeu o prémio e o reconhecimento generalizado da obra de Sacco). Facilmente se conclui, portanto, que Palestina chega a Portugal com mais de dez anos de atraso - contudo, a tragédia e a falta de soluções do conflito israelo-palestiniano ajuda a que ela ainda se encontre tristemente actualizada.

Que não haja dúvidas: o olhar de Joe Sacco, um americano de 43 anos natural de Malta, é claramente pró-palestiniano. Aliás, os prefácios não enganam: o primeiro volume tem um texto de circunstância assinado por Mário Soares e o segundo uma interessantíssima reflexão do recentemente falecido Edward Said, cujo fundamental Orientalismo (obra citada em Palestina) foi também só agora publicado em Portugal, numa feliz coincidência de datas. A propósito de Palestina, afirma Said: «Com excepção de um ou dois romancistas e poetas, ninguém jamais transmitiu esse terrível estado de coisas melhor do que Joe Sacco». O próprio Sacco assume essa «militância», e justifica-a pela necessidade de reagir ao pensamento único que então dominava os media americanos, com os israelitas invariavelmente retratados como vítimas dos palestinianos.

Embora o mundo esteja novamente hiper-politizado, convém ser claro quanto a Palestina: Sacco tem um olhar comprometido e não se interessa por escutar as vítimas do lado israelita (embora aflore o tema), mas isso não significa que esteja a mentir ou a sublinhar excessivamente o sofrimento do povo palestiniano. Pouco preocupado com a questão da objectividade (na qual não acredita), ele é bastante cuidadoso na questão da honestidade, não suavizando o ódio dos palestinianos, mesmo quando ele tem formulações inadmissíveis: «Os judeus são como um cão que se apossou de um pedaço de carne. Não haverá paz enquanto não se matar o cão» (vol. 2, p. 20).

De resto, a catadupa de tragédias pessoais que se sucedem ao longo das quase três centenas de páginas reflecte o mar de ódio que inundou a Palestina, e que por vezes é retratado de melhor forma na subtileza da história das oliveiras cortadas pelos israelitas, roubando o único sustento a uma família palestiniana, ou do jovem habitante da Faixa de Gaza que tem vergonha por nunca ter sido preso (uma raridade), do que nos relatos de mortes e tortura.

Em tudo isto Joe Sacco é uma personagem interveniente, já que Palestina é também uma reportagem auto-biográfica, e não isenta de auto-ironia. Afirma ele: «Sejamos francos, os meus êxitos dependem do piorar do conflito; não é a paz que me paga a renda» (vol. 1, p. 76). No entanto, este humor e o gosto pela irrisão não impede que a sua abordagem seja cem por cento jornalística, tal como o seu método de trabalho, consistindo em entrevistas e fotografias (os desenhos só nascem depois). Embora ele tivesse alguma experiência anterior no domínio da BD, e já utilizasse um registo semelhante, foi em Palestina que Sacco apurou a sua linguagem, e isso é visível na evolução do próprio livro: Na Faixa de Gaz é menos palavroso e mais bem desenhado do que Uma Nação Ocupada, como se o autor fosse tomando consciência das capacidades do seu traço, e de que não valia a pena explicar muito o que podia ser mostrado bem. Seja pelo tema, pela sensibilidade ou pelo traço, Palestina é uma obra indispensável na estante de qualquer leitor de bom gosto.

Uma última palavra para a edição portuguesa, de um modo geral cuidada, embora devesse ter havido mais atenção no corte das páginas, que por vezes levam pedaços de imagens e texto, e na revisão, em particular nos prefácios, onde se colocam demasiadas vírgulas em lugares proibidos. Contudo, merece ser reconhecido o excelente e meticuloso trabalho de Susana Paiva e Pedro Nora na complicada legendagem do livro.



A FICHA
Palestina vol. 1: Uma Nação Ocupada
Autor: Joe Sacco
Editora: Mais BD/ Devir
Páginas: 156
Preço: €14,95
Classificação. ****

Palestina vol. 2: Na Faixa de Gaza
Autor: Joe Sacco
Editora: Mais BD/ Devir
Páginas: 162
Preço: €14,95
Classificação: *****

Copyright: © 2004 Diário de Notícias; João Miguel Tavares

     
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