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 Público. Mil Folhas, 20 de Março de 2004
Histórias de guerra na terra de ninguém
Carlos Pessoa
Conhecem a "piada palestiniana"? Três agentes da CIA, KGB e Shin Bet (serviços israelitas de segurança interna) passeiam pela floresta. Vêem um coelho branco e decidem apostar sobre quem o captura mais depressa. O homem da CIA é o primeiro a agir e regressa 10 minutos depois com o roedor. Liberta-o e cinco minutos depois é a vez do agente do KGB exibir o animal capturado. O israelita não parece impressionado e parte, por sua vez, atrás do coelho branco. Passam-se 40 minutos sem nada acontecer. Os outros decidem ir à procura dele e embrenham-se pela floresta. Ao fim de muito tempo a caminhar ouvem gritos e berros e, seguindo o som, chegam a uma clareira onde o homem do Shin Bet espanca um burro enquanto lhe grita: "Confessa que és o coelho!"
O episódio não preenche mais do que uma prancha entre as quase 300 escritas e desenhadas por Joe Sacco - um jornalista e autor de BD norte-americano que esteve dois meses em Israel e nos territórios ocupados, por ocasião da primeira Intifada (1987-1992) - em Palestina, uma obra publicada em fascículos nos anos de 1993-1995, que deu ao seu autor o prestigiado prémio American Book Award, em 1996. Os simpatizantes da causa palestiniana talvez soltem uma gargalhada aberta, os defensores de Israel talvez se sintam insultados, mas há uma "lição moral" que pode ser extraída: quando o sentido de humor permanece incólume nas mais adversas circunstâncias da existência, é caso para concluir que talvez nem tudo esteja perdido para a condição humana...
Palestina (excelente edição portuguesa) é o relato ao mesmo tempo apaixonante e desapaixonado, envolvido e distanciado, grave e ligeiro, sério e irónico, de histórias de seres humanos em cenário de guerra, recolhidas com meticulosidade e perseverança, mas sobretudo com um agudíssimo sentido de observação, por vezes desapiedado, mas profundamente compassivo. Na sua esmagadora maioria, são histórias de vida de homens, mulheres e crianças palestinianas que viram as suas vidas quebradas - muitas vezes de forma irreversível ou definitiva - pela acção opressora do exército ou dos colonos israelitas. Mas também passam pelas pranchas a preto e branco de Sacco as aspirações, dúvidas e inquietações de cidadãos "do outro lado" da barricada, cuja aspiração última é poderem viver as suas vidas como gente comum.
Há situações e factos cuja descrição dispensa outras considerações. É isso que o autor faz, sempre sem julgamento: salas de operações hospitalares invadidas por soldados, pessoal médico e paramédico agredido, derrube de casas pertencentes a suspeitos bombistas, enterros de vítimas das balas pela calada da noite, tortura sistemática de suspeitos, recusa de assistência médica a feridos graves, cortes de electricidade e água durante dias a fio, recolher obrigatório durante a noite. Cada palestiniano dos territórios ocupados tem uma história para contar, uma cicatriz corporal ou emocional para exibir, um desemprego de longa duração para testemunhar ou um punhado de oliveiras centenárias cortadas a eito para mostrar. Tudo isso é diligentemente registado pelo autor, que percorre caminhos e lugares de um espaço confinado entre barreiras de arame farpado, torres de vigilância e pontos militares de controlo. No seu interior, recorda Sacco, movimentam-se e respiram milhares e milhares de pessoas sem trabalho nem liberdade para o procurar, amontoadas em casebres precários, a que se acede através de arruamentos empoeirados ou lamacentos, consoante as estações.
As entrevistas com os protagonistas voluntários e involuntários deste conflito sem fim sucedem-se e a certa altura parece já não haver capacidade de indignação com o que é repetido até à agonia, num exercício de exorcização dos fantasmas e medos, terrores e desesperos. Um palestiniano idoso resume lucidamente a situação: "És uma pessoa, eu sou uma pessoa, somos todos pessoas, todos viemos do pó. Os romanos, os bizantinos, os cruzados, os turcos, os ingleses, todos eles aqui estiveram... E onde estão agora? Vamos todos. A Deus basta-lhe apenas isto para mudar as coisas [mostra o indicador e o polegar separados por poucos centímetros]". Noutro momento, um polícia israelita não consegue disfarçar um sorriso ao enfrentar manifestantes que gritam raivosamente "slogans" contra Israel, como se nada do que está a acontecer - e ocorre vezes sem conta - passasse de uma representação em que cada um desempenha o seu papel com uma convicção extrema.
Na verdade, ao terminar a leitura de Palestina só uma pergunta persiste: como é possível viver naquelas condições, numa disputa sempre e sempre repetida de um território que não parece chegar para todos? De facto, não é possível, porque na Palestina sobrevivem dois povos, com uma origem comum, que estão condenados a entender-se. O trágico é que, de momento, nenhum deles tem consciência disso.
Copyright: © 2004 Público; Carlos Pessoa
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