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Jornal de Notícias, 30 de Março de 2004

Pai de Blake e Mortimer nasceu há 100 anos : Aventura, fantástico, obsessão pelo rigor e antecipação científica classificam a obra de Edgar P. Jacobs

Pedro Cleto

Faz hoje 100 anos que nasceu em Bruxelas Edgar Pierre Jacobs. Desde cedo apaixonado pelo desenho e pela música, parecia que esta iria levar a melhor, mas o mundo perdeu um barítono, para ganhar um excepcional autor de histórias aos quadradinhos, criador da dupla de aventureiros formada pelo capitão Francis Blake, dos serviços secretos ingleses, e pelo professor Phillip Mortimer, um eminente cientista, cujas aventuras animou de 1946 a 1987, quando a doença de Parkinson o vitimou.
Após trabalhar em publicidade e ilustração de catálogos, entrou para a revista “Bravo” onde, em 1942, lhe foi confiada a tarefa de concluir a BD de “Flash Gordon” em curso, pois a importação do material original fora proibida devido à II Guerra Mundial. Um ano depois conhecia Hergé, entrando para os seus estúdios como colorista e desenhador das versões actualizadas e a cores dos álbuns iniciais de Tintin sendo, mais tarde, co-argumentista de novas histórias. Em 1946 nascia a revista “Tintin” e, com ela, Blake e Mortimer. O seu sucesso imediato e a recusa de Hergé incluir o seu nome nos álbuns de Tintin, levá-lo-ia a deixar os Estúdios Hergé para se dedicar por completo aos seus heróis.
Da ópera, Jacobs trouxe para a 9ª arte o amor pela grandiosidade e o sentido operático, que viriam a tornar-se a sua imagem de marca, a par da antecipação científica desenvolvida de forma credível (como mostra “Blake et Mortimer face aux démons de la science”, o número especial que a Science & Vie lhe dedicou, que disseca todas as referências técnicas e cientificas em Jacobs). Por isso, em “Blake e Mortimer” encontramos armas muito poderosas (“O Segredo do Espadão”, 1950/53), controle da mente (“A Marca Amarela”, 1956), controlo meteorológico (“SOS Meteoros”, 1959), viagens no tempo (“A Armadilha Diabólica”, 1962), e robótica (“As 3 Fórmulas do Professor Sato”, 1977), etc.
Outra das paixões de Jacobs, a História, está patente na sua obra, habilmente combinada com lendas e superstições, estando na génese de “O Mistério da Grande Pirâmide” (1954/55) e de “O Enigma da Atlântida” (1957).
A obsessão pelo rigor e pelo detalhe é outro aspecto incontornável da sua criação e a ela se deve uma tão curta bibliografia: apenas oito aventuras em 40 anos. Obsessão que o levou a parar “As três fórmulas do Professor Sato” durante semanas à espera de uma fotografia de um caixote do lixo japonês, a abandonar uma prometedora sequência em “O Mistério da Grande Pirâmide” por não ser compatível com os horários dos autocarros Cairo-Gizé, a percorrer ao pormenor o metropolitano francês ou a passar duas semanas em Londres de máquina fotográfica em punho. Elementos fundamentais para dar vida ao seu traço linha clara, realista e minucioso, que servia de base a argumentos consistentes, imaginativos e credíveis que preenche(ra)m os sonhos de gerações de leitores.
A Festa dos 100 anos
Biografia, reedições, emissão filatélica e grandes exposições assinalam a data

Diversos eventos assinalam o centenário de Jacobs. Em Paris, o Musée de l’Homme tem patente até 30 de Abril, “Blake et Mortimer à Paris”, mas, quem quiser ver originais de Jacobs terá que se deslocar ao Centre Belge de Bande Dessinée onde, desde dia 23 e até 12 de Setembro está patente “Le siécle de Jacobs”, um conjunto excepcional de pranchas, ilustrações e objectos. Igualmente em Bruxelas está “Blake & Mortimer au Musée Royal de l’Armée” que explora a relação da sua obra com o espólio daquele museu.
No que respeita a edições, há um novo álbum de Blake e Mortimer “Os Sarcófagos do 6º Continente – Tomo 1”, o número especial da revista “Science & Vie”, “La Damnation d’Edgar P. Jacobs”, de François Rivière e Benoit Mouchart, uma biografia que lança uma nova luz sobre o autor, e a reedição actualizada de "Le monde de Edgar-Pierre Jacobs", de Claude Le Gallo. E mm, Maio, emissão conjunta da Bélgica e da França de um selo com a sua foto e um bloco com os seus heróis.

E depois de Jacobs... mais Jacobs!
Após a morte do seu criador, Blake e Mortimer vivem novas aventuras pela mão de Van Hamme, Benoit, Sente e Juillard

Ao contrário de Hergé, por exemplo, Jacobs nunca colocou entraves a que os seus heróis sobrevivessem à sua morte. Por isso não surpreendeu que logo em 1990, Blake e Mortimer regressassem pela mão de Bob de Moor, seu velho amigo e companheiro, em “As 3 fórmulas do professor Sato – 2. Mortimer contra Mortimer” que Jacobs deixara completamente esboçada e escrita. Para a Foundation Jacobs foi evidente que sem novidades editoriais era difícil manter a aura dos heróis, pelo que o rumor de novas histórias viria a confirmar-se em 1996, em “O Caso Francis Blake”, com argumento de Jean Van Hamme e desenho de Ted Benoit. Se a história seguia o estilo de Jacobs, incluindo as longas descrições explicativas que repetem o que as imagens mostram e mesmo as faltas de concordância entre os sentidos da acção e da leitura, o traço de Benoit era mais livre e arejado do que o original. Esta dupla avançou para novo título, “O estranho encontro” (2001), mas a lentidão de trabalho de Benoit levou a que um ano antes surgisse “A conspiração Voronov”, assinada por Yves Sente e André Juillard, que conseguiram uma colagem perfeita e completa ao estilo Jacobs, que viriam a repetir, em finais de 2003, em “Os sarcófagos do 6º continente, Tomo 1 - A ameaça universal”. Mas, se estas novas histórias são consistentes e coerentes com a herança de Jacobs, têm dois problemas: situadas nos anos 50, falta-lhes a antecipação científica que aquele demonstrava, e a inclusão de personagens femininos, numa tentativa de “actualização”, tem-se revelado pouco consistente e até contrária ao espírito da série.

No entanto, com detractores e apoiantes, a verdade é que cada nova aventura de Blake e Mortimer é um sucesso editorial, com tiragens superiores a meio milhão de exemplares e grande cobertura mediática, pelo que não surpreende que, entretanto, Benoit tenha sido substituído pelo bem mais produtivo Sternis.
Claro que, por muito perfeito que seja, um clone não deixa de ser mera cópia do original. Por isso, uma questão se levanta: com a profusão de novos títulos, até quando manterão Blake e Mortimer o estatuto de estrelas maiores no firmamento da bd?
Outros caminhos poderiam ter sido seguidos. Na “Bodoi” nº 72, de Março último, Joann Sfar, um dos mais talentosos e interessantes autores da nova geração, assumia o desejo de retomar a série, revelando ter mesmo feito uma proposta à editora. Não para “apostar na nostalgia; estou convencido que os Blake e Mortimer escritos hoje são para alegrar aqueles que os leram na sua infância... Eu gostava de escrever álbuns que agradassem aos leitores actuais.” E explica: “Sempre aceitei mal que Blake e Mortimer não tenham uma vida pessoal. Partilham um apartamento mas não são homossexuais. Nunca os vemos no trabalho... Porquê? Quero lá saber da sua vida sexual, mas gostava de os ver a trabalhar, a discutir!”.

Notas curtas
O álbum perfeito passa ao grande ecrã
“A Marca Amarela”, considerado por muitos “o álbum perfeito” de BD, pela atmosfera opressiva em que decorre, pelo rigor do retrato de Londres e pela consistência do argumento que gira em torno da manipulação mental, deverá chegar aos ecrãs em Outubro. Com argumento de Charles Gassot e realizado por James Huth, será interpretado por Li Gong, Rufus Sewell e Hugh Bonneville.

Blake e Mortimer em Portugal
Os heróis de Jacobs passaram por Portugal, mais exactamente pela ilha de São Miguel, nos Açores, onde decorrem as primeiras pranchas de “O Enigma da Atlântida”. No seu subsolo Blake e Mortimer encontram os descendentes dos habitantes do mítico continente que, no final, partirão em naves espaciais rumo às estrelas a partir da lagoa das Sete Cidades.

Para lá de Blake e Mortimer
Para além de Blake e Mortimer, na curta bibliografia de Jacobs há apenas três títulos: “O Raio U” (1943), influenciado por Flash Gordon, onde já se adivinham as seus futuros heróis, uma versão ilustrada de “A Guerra dos Mundos” (1947), o romance de H. G. Wells, e “O Tesouro de Tutankhamon”, a única história curta que escreveu, sobre a descoberta do túmulo daquele faraó. E também “Un ópera de papier” (1981), as suas memórias.

Copyright: © 2004 Jornal de Notícias; Pedro Cleto

     
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