| |
 Diário As Beiras, 4 de Fevereiro de 2006
Sob o signo de Hugo Pratt
João Miguel Lameiras
O ano que passou ficou marcado pelo décimo aniversário da morte de Hugo Pratt, o genial criador de Corto Maltese. Uma efeméride que não passou ao lado do mercado editorial, como o atestam a edição, no final do ano, de “O Desejo de Ser Inútil”, o livro de entrevistas conduzido por Dominique Petitfaux e de uma caixa de cinco DVDs que recolhe a série de televisão inspirada nas aventuras do marinheiro maltês.
Produzida pela mesma equipa que realizou o filme “Corto Maltese na Sibéria” (ver Diário As Beiras de 15/5/2004) a série de animação “As Aventuras de Corto Maltese” é composta de 10 episódios de 25 minutos cada, que a Lusomundo agrupou numa caixa de cinco DVDs. Negociado ainda em vida de Pratt, o projecto de adaptar o universo do autor veneziano à animação só se concretizou após a sua morte, quando em 1997, a Ellipseanime, uma companhia do grupo Canal + (que já tinha transposto para animação outros clássicos como “Tintin” e Blake & Mortimer”) assinou com a Cong, empresa detentora dos direitos da obra de Hugo Pratt, um acordo para a produção de uma série de animação para a televisão italiana e francesa a partir das aventuras de Corto Maltese. Apesar de uma série de problemas que envolveram o estúdio, o projecto evoluiu e, além da série para a televisão, avançou-se para uma longa-metragem destinada ao grande ecrã, que foi o já referido “Corto Maltese na Sibéria”.
Embora com menos meios e um orçamento menor, a série, que adapta algumas das mais importantes histórias do herói de Pratt, como “A Balada do Mar Salgado”, “A Casa Dourada de Samarkanda”, e alguns episódios de “Sob O Signo do Capricórnio”, “Corto Maltese na Amazónia”, “As Célticas” e “As Etiópicas” (de fora ficaram histórias com menos acção, como “As Helvéticas”, “Tango” e Fábula de Veneza”), mantém a mesma estética e o mesmo ritmo contemplativo do filme, constituindo-se com uma fiel adaptação do universo do criador de Corto Maltese.
É esse mesmo universo que é desvendado na primeira pessoa no fabuloso “O Desejo de Ser Inútil”, uma biografia de Hugo Pratt, contada ao jornalista Dominique Petitfaux, que a Relógio D’Água lançou em Portugal numa edição magnificamente ilustrada, onde não faltam as belíssimas aguarelas de Pratt. Obra fascinante, como fascinante foi a movimentada vida de Hugo Pratt, “O Desejo de Ser Inútil” permite perceber como o desenhador veneziano incorpora muito da sua vivência pessoal nas aventuras do seu herói-fetiche.
Embora obras mais recentes venham pôr em causa a fidelidade do relato que Pratt traça de si próprio, dando a entender que o autor ajudou a construir a sua própria lenda, dando um colorido extra a uma vida já de si riquíssima, isso mesmo é assumido pelo criador de Corto Maltese, quando, citando Fernando Pessoa, diz, logo no início do livro: “temos todos duas vidas: a verdadeira, que é a que sonhamos na infância; e a falsa, que é a que vivemos em convivência com os outros; e essa que sonhamos é a vida onde queremos viver, e talvez a mais autêntica. Como Calderón (De La Barca, escritor e dramaturgo espanhol) para mim a verdadeira vida é um sonho, embora se possa dizer que nasci em Itália, em Rimini, a 15 de Junho de 1927”.
Inicialmente previsto para ser feito com Claude Moliterni, conhecido crítico e um dos fundadores do Festival de Angoulême, acabou por ser Dominique Petitfaux, que já tinha entrevistado Pratt para o livro “De l’Autre Côté de Corto” (outro livro de entrevistas, mas muito mais centrado na obra do que na vida de Pratt) o escolhido pelo desenhador para conduzir a longa conversa, em que é evidente a empatia e cumplicidade entre os dois. O resultado é uma livro-entrevista que se lê de um fôlego e que dá uma vontade imensa de reler a obra de Pratt, agora com outras chaves de leitura.
O facto da primeira edição deste livro ter esgotado em pouco mais de um mês, prova que, dez anos após a sua morte, Hugo Pratt permanece tão vivo como Corto Maltese no coração dos leitores portugueses.
(“As Aventuras de Corto Maltese”, a partir da obra de Hugo Pratt, Lusomundo, caixa com 5 DVDs, 44 €
“O Desejo de Ser Inútil”, de Hugo Pratt e Dominique Petitfaux, Relógio D’Água, 296 pags, 25 €)
Copyright: © 2006 Diário As Beiras; João Miguel Lameiras
|