| |
 Jornal de Notícias, 26 de Fevereiro de 2007
Autor espanhol de BD que também faz cinema
Pedro Cleto
Chama-se Miguelanxo Prado, nasceu na Corunha em 1958 e é um dos mais aclamados e premiados autores de banda desenhada da sua geração. Esteve no Fantasporto para falar de "De Profundis", um filme de animação, mas assume-se "como um autor de BD que faz cinema".
"Continuo a pensar que a banda desenhada é o código mais potente dos que controlo. A capacidade que tem uma imagem fixa, de criar na mente do leitor a noção de movimento, de passagem do tempo, etc, é uma potencialidade que não vejo noutros meios", diz. Enquanto autor empenhado em transmitir uma mensagem crítica, embora reconhecendo que com o cinema chega a um público mais vasto, prefere a BD, porque "um leitor fica com o livro para toda a vida; um espectador esquece o filme. O público de cinema não tem memória".
Quanto a "De Profundis", apresentado como "uma proposta de pesquisa artística para relacionar a pintura, a música e as novas tecnologias da imagem", é antes de tudo "um projecto extremamente pessoal, nascido no final dos anos 90" e no qual se empenhou "durante quatro anos os dois primeiros na pré-produção, e os dois seguintes de dedicação total e exclusiva ".
Prado fez "todos os desenhos - em pintura a óleo - necessários para obter a animação". Classifica "De Profundis" como uma animação "de autores", porque é um projecto seu e de Nani Garcia, um amigo, músico de Jazz, com larga experiência de escrita de música para cinema e televisão e cujas composições são os únicos sons audíveis nos 75 minutos de filme.
"De Profundis", que só deve ser visto por quem é capaz "de estar 15 minutos sentado a ver um pôr-do-sol no mar", conta a história de uma violoncelista que vive numa casa no meio do oceano, onde aguarda o seu amado, um pintor que sempre quis ser marinheiro e que, após um naufrágio, efectua uma viagem maravilhosa ao fundo do mar, fonte inesgotável de beleza e mistérios.
Prado acredita que "os habitantes dos países que têm uma cultura marítima e uma relação próxima com o mar terão uma sensibilidade especial para apreciarem a obra". "Como os portuenses, que vivem com o mesmo Atlântico que me inspirou, o que poderá criar uma cumplicidade maior, para entender a história, o seu lado onírico, as mitologias relacionadas com o mar, as sereias, os monstros marinhos, os sonhos e terrores que o mar inspira".
E embora a gestação de "De Profundis" tenha coincidido no tempo com a catástrofe do petroleiro "Prestige", Prado nega "a ideia de denúncia". E finaliza "O filme tem, sim, uma clara vocação de redenção, uma espécie de ritual propiciatório, um pedido de perdão. Pretende recuperar o oceano na sua concepção mais limpa, mais brilhante, mais tradicional. É um conto, com muita poesia. Estou consciente que a metáfora pode ser vista como uma denúncia. Vejo-o mais como uma oferenda".
Entre os filmes de hoje no Fantasporto, destaque para "Sketches of Frank Gehry", a primeira incursão de Sydney Pollack no documentário. No Rivoli, às 21.15 horas.
Copyright: © 2007 Jornal de Notícias; Pedro Cleto
|