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Ler, 1 de Abril de 2009

Prison Stories

Sara Figueiredo Costa

Igor Hofbauer
Prison Stories
Mmmnnnrrrg

Igor Hofbauer, nascido na Croácia em 1974, tem trabalhado sobretudo na área do design, criando cartazes para eventos ligados à música, ao cinema e a outras artes, sobretudo nos meios conotados com o underground. As linhas de força dessas criações, nitidamente influenciadas pelo trabalho de Aleksandr Rodchenko e do Construtivismo soviético, transparecem na colectânea de histórias em banda desenhada que a editora Mmmnnnrrrg acaba de publicar, com o preto e branco a organizar-se de modo equilibrado, separando claramente texto e imagem, com o vermelho a assinalar elementos dissonantes ou em destaque e com os traços oblíquos a definirem a estrutura de vinhetas e pranchas.

As histórias de Hofbauer convocam reflexões sobre a sociedade, medos inerentes à condição humana e várias situações identificáveis com o antigo Bloco de Leste, mas sempre passíveis de uma abstracção universalizante. Mesmo que algumas referências sejam óbvias, como a omnipresença do Muro de Berlim em “Band You Never Heard, Band You Never Saw”, nenhuma história se fecha nos limites do enredo que a sustenta, permitindo leituras intemporais. Para isso contribuem não só as reflexões que Hofbauer sugere, mas também as características das personagens, híbridos onde o animal e o humano convivem num desconforto visível, e ainda a inexistência de um contexto que clarifique, sem margem para dúvidas, personagens e situações. E apesar disso, a leitura não se ressente: não é preciso saber de onde vem o homem que habita a jaula de “My Prison Story” para se perceber a metáfora da prisão-espectáculo, nem são necessários motivos claros para que nos apropriemos da angústia da mulher em fuga de “Nail Story”.

“Olympia Story”, a história da antiga diva da canção que vive enjaulada e se alimenta das estrelas fugazes que o mundo do espectáculo produz a cada dia, apresenta uma estrutura mais clássica no que à narrativa diz respeito, com os dados para a compreensão do enredo a surgirem à medida que são necessários e com o recurso a analepses bem definidas (a exibição de velhas imagens em vídeo, ou os espectros que permitem vislumbrar os dias de glória da diva) esclarecendo o passado. Contrastando com o conjunto formado pelas restantes histórias, mais evasivas, “Olympia Story” acaba por ser o corolário de uma compilação que faz justiça ao trabalho de Hofbauer, marcado por um formalismo exemplar, cuja rigidez se esbate com a presença das inquietações, medos e dúvidas que assolam as suas personagens. Uma nota final sobre a edição, em inglês como a original, facilitando a circulação em festivais e livrarias estrangeiras, prática corrente na banda desenhada menos comercial.

Copyright: © 2009 Ler; Sara Figueiredo Costa

     
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