26.7.2010
A história de um cavalo que fazia contas
Jornal de Notícias
25.7.2010
Livraria de bd de autor no “Bairro dos Livros"
Público
24.7.2010
O regresso de Bouncer
Diários As Beiras
19.7.2010
1927-2010 – Víctor de la Fuente – Sempre um passo à frente do seu tempo
Público

 

 

Jornal
Título
Jornalista
Texto
Assunto
 


1991, 1992, 1993, 1994, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010

2010
Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho, Julho

 



29.07.2010
Hemeroteca Digital



28.07.2010
Vandal Jackpot


 
 
 
 

 
 


JL, 24 de Fevereiro de 1999

Marco

João Ramalho Santos

Quantos autores nacionais contemporâneos se podem gabar de serem uma referência importante directa para quase todas as gerações que se lhes seguiram? Na BD muito poucos. E um dos maiores é sem dúvida Fernando Relvas. Um dos (poucos) inquestionáveis talentos nacionais, a presença de Relvas tornou-se emblemática na igualmente fundamental revista “Tintin”, com a série “Espião Acácio” e com histórias como “L123” e “Cevadilha Speed”. Com um notável sentido de oportunidade, a Associação do Salão Internacional de BD do Porto (ASIBDP) re-editou estas duas últimas histórias (publicadas originalmente entre 1981 e 1982) num excelente volume, que é uma das propostas essenciais para este final de milénio.
Porque é que “L123” foi tão marcante no panorama nacional? Primeiro porque Relvas, para além de um desenho notável, revela-se exímio no seu entendimento da linguagem da banda desenhada, criando uma história fluida e vibrante. Depois porque o autor transpõe para “L123”, como o próprio título (referente ao passe rodoviário lisboeta de 3 zonas) indica, o pulsar de uma cultura suburbana antes nunca vista nos quadradinhos nacionais. Um modo de vida a um tempo excitante e monótono, onde, nos cafés e praças, se cruza uma fauna complexa de estudantes e jovens profissionais, de membros de gangs, traficantes de droga e polícias corruptos. E Relvas tem a grande qualidade de saber transpor os diferentes “tipos” e coloquialismos para o papel, sem lhes dar a superficialidade bidimensional de meros estereótipos. Num meio em busca de novas soluções, este relato semi-policial foi pois uma autêntica revelação. É certo que em “L123” nota-se já, em embrião, aquilo que seria talvez o problema maior na carreira de Relvas: manter-se focado numa linha narrativa, sem desvios que comprometam a credibilidade da história e, por conseguinte, a atenção dos leitores. Mas esse é um problema decididamente menor, neste marco da BD nacional.
Se “L123” é uma vibrante sinfonia urbana, a sua “continuação”, “Cevadilha Speed”, é um pequeno poema de evasão. Recuperando alguns elementos de “L123”, esta é uma história mais curta e cheia de humor, com fulcros e situações muito mais bem definidos, e que tem como tema outro popular mito urbano português: a romaria estival rumo ao Algarve. Muito bem construída, a narrativa cria personagens memoráveis, desde os protagonistas (Cevadilha, Ganza, Eco), aos figurantes, como os “locais” algarvios e os veraneantes teutónicos. Depois de alguma desilusão suburbana no final de “L123”, o tom de “Cevadilha Speed” é muito mais positivo, uma história que acredita no direito das suas personagens à felicidade.
Há quase duas décadas (por incrível que isso possa parecer) Fernando Relvas demonstrou (quase) sozinho, que havia uma cultura citadina portuguesa que podia ser transcrita em BD, sem recurso a modelos importados e/ou já muito gastos. Mais do que isso, e sem entrarmos em discussões inúteis sobre a carreira fenomenal que o autor “podia ter tido”, o talento transbordante de Relvas marcou indelevelmente quem o leu nas páginas do “Tintin”, forçando a conclusão inevitável que até era possível fazer BD original de qualidade no nosso país. Relê-lo hoje neste excelente volume é obrigatório.
E, porque as Associações não são (não devem ser) entidades abstractas e cinzentas, é bom sublinhar que esta notável edição do trabalho de Relvas não teria sido possível sem a dedicação do editor Júlio Moreira. Como determinante tem sido o trabalho de Pedro Cleto na edição contínua da colecção “Quadradinho”, onde autores nacionais tem a oportunidade de se exercitarem em curtas histórias, e que se tem revelado um laboratório fundamental. E terá de se referir igualmente o trabalho gráfico de José Rui Fernandes, a dar uma unidade estilística de qualidade a tudo quanto tem o selo da ASIBDP. Assim vale a pena estar na banda desenhada.

“L123; seguido de Cevadilha Speed”. Texto e desenhos de Fernando Relvas. ASIBDP. 140 pp. 2400$00.

Copyright: © 1999 JL; João Ramalho Santos

     
  © 2002 Bedeteca de Lisboa