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O Independente, 5 de Março de 1999

Generais e Marialvas

João Paulo Cotrim

Era uma vez uma época esquisita em que nem a televisão era a cores. A melhor maneira de viajar ao passado é mesmo com livro de caricaturas de João Abel Manta, agora reeditado.

A tendência literária manda hoje que qualquer texto seja fragmentado. As longas narrativas quebraram-se e, como um pára-brisas estilhaçado, qualquer romance que se preze deve agora apresentar-se à sociedade como uma cristalina colecção de impressões e pensamentos, diálogos despojadíssimos e uma ou outra descrição desde que breve. Por um momento, seguramente disléxico, Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar, de João Abel Manta parece estar na moda, ajudado ainda pelo grande caudal comemorativo do 25 de Abril. Nada disso. É certo que, contas feitas e tempo passado, estes retratos soltos compõem um romance silencioso sobre os anos em que, como sugere a capa desta belíssima reedição, o horizonte, em Portugal, apenas se descobria por entre dentes de aço, mas acabam aqui as coincidências.
Este autor há muito se afastou do mapa das estrelas mediáticas e cumpre, mergulhado em pintura, um exílio interior. O seu estilo embora forte e gráfico não é tão fácil quanto se espera de um desenho de humor. Depois, o riso que a caricatura convoca tem aqui umas vezes um tom prateado de funeral outras o daqueles velhos sorrisos que trocaram cáries por metal precioso. O tema não possui leveza capaz de ser traduzida em televisão, isto além do facto do Portugal de hoje querer à viva força enterrar o país de Salazar numa memória já solene e esquecida, com contornos esfumados do "não foi assim tão mau".
Claro que há ficção e ensaio a reconstituir com qualidade e sabor aquela época e imaginário, mas só as caricaturas de Abel Manta somam ao peso da pintura, a realidade do romance e a amarga mordacidade da experiência vivida.
Assim se faz a necessidade de um livro, para nos levar por força de imagens únicas aos alicerces de um país pequeno como é este. Numa estranha procissão silenciosa, onde as palavras mais não são do que um título ou nome - singelo enquadramento! - vão passando pela página os actores e cenários daqueles anos (Salazar e a província, Marialvas e Generais, guerra e povo, amor, desporto, folclore e estátuas), mas também figurinhas de hoje (por exemplo, amor, desporto, folclore e estátuas) e os mitos de sempre (Fátima, Camões, Santo António, além do amor, desporto, folclore e estátuas). Cada página fixa num quadro de cores baças, de entre as quais sobressai um prateado sonoro, uma cena quase sempre macabra, miserável ou risível. "Partilhas" apresenta dois irmãos armados de machado, espingarda e sangue. "Missionários" mostra dois esqueletos debaixo de água abraçados a um padrão e ladeados por sinistro escafandrista. "Marujo" revela uma enormíssima sereia e um pequeno marujo, além dos rebentos de tão singelo casal. As figuras como que se abandonam perante os nossos olhos numa cena que é a última de um qualquer acto. Uma fala da ruralidade, a outra de religiosidade, esta de política e a aquela de cultura. Muitas falam de Salazar, todas falam de Portugal. Nos anos de Salazar, a última das cenas é a primeira deste livro: o lento envelhecimento do ditador à janela de um palácio. Um país que deixa envelhecer um ditador à janela do mesmo palácio é uma caricatura.
A radicalidade do trabalho de João Abel Manta está no rigor, é certo, mas num rigor que é peculiar. Os rostos sempre expressivos, as mãos rígidas e deformadas, os corpos de massas disformes ou volumes elegantes - todas as suas figuras se vêem prisoneiras do respectivo contorno. De igual modo, todos os quadros possuem uma fronteira bem vincada e, nos casos em que se fala de prisão ("Tarrafal", por exemplo) eles engordam a um ponto absolutamente opressivo e esmagador. O traço é uma metáfora da condição humana. País ou indivíduo, só somos livres no momento em que nos libertarmos do contorno...

Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar, João Abel Manta, Prefácio de Mário Dionísio, 144 pp a cores, Outubro 1998, Campo das Letras

Copyright: © 1999 O Independente; João Paulo Cotrim

     
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