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Público, 7 de Abril de 2002

Vida de Jesus em BD Provoca Escândalo na Áustria

Carlos Pessoa

Bispos católicos exigem pedido de desculpas

O autor não compreende as reacções e responde à letra: "Deixem de ter vergonha dos meus desenhos e façam qualquer coisa que vos dê prazer"

Quem acreditava que já não era possível fazer variações "escandalosas" em torno da vida de Jesus depois do filme "A última tentação de Cristo", de Martin Scorsese (1988), ou do livro de fotografias da francesa Bettina Rheims, enganou-se. Uma banda desenhada publicada na Áustria poucos dias antes da Páscoa está a deixar em estado de choque a opinião pública austríaca. Toda? Não, apenas os sectores católicos, com a hierarquia religiosa local na primeira linha.

"Das leben des Jesus" (A vida de Jesus), publicado pelo editor austríaco Ueberreuter, custa 14,90 euros e propõe uma interpretação, entre o jocoso e o provocador, da figura do Cristo. Nada escapa à truculência do seu autor, Gerhard Haderer. Jesus é uma criatura ociosa, permanentemente "charrada" com incenso e que nada tem a ver com os milagres que lhe são imputados. Na verdade, tudo acontece à sua volta um pouco por acidente ou feliz coincidência e quem aproveita em grande são os seus discípulos, um grupo de homens venais que aproveitam para... vender seguros de vida. De passagem, fica-se a saber a verdade a respeito dos camelos e dos Reis Magos ou do mistério da multiplicação dos pães e dos peixes.

As reacções não se fizeram esperar. O cardeal arcebispo de Viena, monsenhor Christoph Schoenborn, recomendou a Haderer que pedisse perdão aos cristãos por ter "ridicularizado e escarnecido " da sua religião: "Conto-me entre os que, neste país, não conseguem habituar-se ao facto de a fé sobre a qual construíram a sua vida seja constantemente votada ao ridículo em nome da liberdade artística."

Um grupo numeroso de bispos e representantes da Igreja Católica juntou a sua voz às de Schoenborn. Diversas escolas católicas em Viena decidiram, por seu lado, boicotar o editor da obra. O Procurador da República examina entretanto várias queixas contra o livro, acusado de "denegrir os ensinamentos religiosos", o que é proibido pela lei austríaca. Mas a porta-voz do procurador, Iris Seidenstricker, já veio declarar publicamente que "a liberdade artística também está protegida pela lei".

Em declarações a Christine Boggis, jornalista da AFP, Iris Seidenstricken afirmou não "compreender este escândalo": "O cardeal Schoenborn afirma que as pessoas deviam ser protegidas deste livro, mas ninguém tem de ser defendido. As pessoas podem ler o livro ou não e são suficientemente inteligentes para formularem a sua própria opinião."

Gerhard Haderer, nascido em 1951 e que colabora regularmente como ilustrador para publicações internacionais ("Stern", "Profil", "Geo" ou "Trend") reage a tudo isto com fleuma: "Tenham calma, deixem de ter vergonha dos meus desenhos e façam qualquer coisa que vos dê prazer."

O editor abriu um espaço de debate no seu "site" ( http://www.ueberrreuter.at ), onde se podem ler opiniões como a deste comentador anónimo: "Tiro o chapéu a Haderer por ter conseguido que a Igreja Católica fizesse publicidade ao seu livro."

Os bispos protestantes da Áustria não vão tão longe. "Ninguém obriga os católicos a ler este livro. Vocês [o editor] não podem insultar Cristo, que só pode ser um motivo de interesse para todos. Haderer esforçou-se a descobrir a vida de Jesus e depois disto talvez outros queiram conhecer a versão original", afirmou o bispo Herwig Sturm.

Copyright: © 2002 Público; Carlos Pessoa

     
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