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Notícias da Amadora, 21 de Fevereiro de 2002

Miguel Rocha e o estado da nação bedéfila

Pedro Mota

No âmbito da edição de 2001 do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, estava programada uma conferência sobre as novas tendências da BD nacional, com a presença de quatro jovens autores portugueses: Diniz Conefrey, Vera Tavares, Rui Lacas e Miguel Rocha. Como frequentemente acontece com os jovens autores portugueses, três dos quatro autores não cumpriram o programa estabelecido. Apenas Miguel Rocha compareceu à hora prevista no auditório da Escola Intercultural, interrompendo uma concorrida sessão de autógrafos. Não será motivo de surpresa nem mera coincidência o facto de o público presente no auditório para a anunciada conferência ser apenas o público de Miguel Rocha. Perguntado o que desejava fazer face à ausência dos seus colegas conferencistas, Miguel Rocha afirmou a sua disponibilidade para responder a quaisquer perguntas da assistência e falar um pouco sobre a banda desenhada portuguesa, antes de retomar a sessão de autógrafos interrompida.
Miguel Rocha nasceu em 7 de Março de 1968. Tem o curso secundário de Artes e Técnicas do Fogo da Escola António Arroio e o Curso de Desenho do SNBA. Dedica-se à publicidade durante nove anos e, após uma passagem pela revista Pais & Filhos, onde publica Pequenos Sarilhos, estreia-se para o público da BD em 1998, na colecção Quadradinho, com o jacobsiano O Enigma Diabólico (em colaboração com José Abrantes). Em 1999 publica Borda d' Água (LX Comics), Dédalo (Polvo) e As Pombinhas do Senhor Leitão (Baleiazul). Este último vale-lhe um prémio especial no Festival da Amadora. Em 2000 publica dois álbuns, Março (Baleiazul) e Eduarda (Polvo). Março vale a Miguel Rocha o Troféu Zé Pacóvio e Grilinho para o Melhor Desenhador Português. Eduarda, adaptação à banda desenhada de Madame Edwarda de George Bataille a partir da tradução de Francisco Oliveira, foi distinguido com o Troféu Zé Pacóvio e Grilinho para o Melhor Álbum Português. Em 2001, ano em que é o autor responsável pela linha gráfica do Festival da Amadora, publica [MALITSKA:] (Polvo), num regresso à colaboração com Francisco Oliveira.
Para 2002, tem preparados vários projectos, incluindo Beterraba, concebido com uma bolsa para a criação artística atribuída pelo Ministério da Cultura.
O retrato que Miguel Rocha faz da banda desenhada portuguesa revela a mesma maturidade a que nos habituou como autor, constituindo uma interessante pista de reflexão. Entre os factores que informam a situação actual da BD portuguesa, Miguel Rocha começa por destacar a ausência de um verdadeiro público e de meios próprios de divulgação. Depois, existe uma crítica a que falta profissionalismo.
Tudo somado, falta sobretudo uma verdadeira cultura de banda desenhada em Portugal. Embora a proporção entre o número de autores e obras e os apoios existentes à criação seja ainda benéfica, as coisas estão a mudar. As Edições Polvo permanecem como a única editora com um plano consistente em termos de publicação de autores nacionais, e a ESBAL e Ar.Co mantêm-se os grandes fornecedores de novos autores para um mercado que não existe. E as exposições de originais continuam a ser o grande veículo de divulgação e reconhecimento. Tudo isto são indicadores de que a BD em Portugal continua a fazer-se por gosto (alimentada pelo desafio da linguagem).
Miguel Rocha não poupa elogios à nova geração de autores nacionais, que tem uma mensagem própria e constrói as suas próprias referências, ainda que as três cadeiras vazias ao seu lado demonstrassem que esta mensagem própria da nova geração não está isenta de reparos.

Copyright: © 2002 Notícias da Amadora; Pedro Mota

     
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