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Jornal de Notícias, 22 de Abril de 2003

O regresso de Pitanga, barbeiro a domicílio. Criação de Arlindo Fagundes é um dos poucos heróis da BD portuguesa. Novo álbum apresentado amanhã na Bedeteca de Lisboa.

Pedro Cleto

Em 1985, em “La Chavalita”, a BD portuguesa conhecia um novo herói: Pitanga. Como traços distintivos, um desenho com limitações, compensado por um invulgar sentido narrativo, uma história bem escrita e um apurado sentido de humor. Amanhã, às 18h30m, 18 anos depois, é apresentado, na Bedeteca de Lisboa, “A Rapariga do Poço da Morte” (Ed. Caminho) o segundo álbum das suas aventuras, pretexto para uma conversa com o seu autor, Arlindo Fagundes, ceramista e ilustrador da popular colecção “Uma aventura”.
Tudo começou porque “nos anos oitenta, deparei com Paris invadida por Pratt. O seu pior fez-me perder a vergonha e atrever-me a pensar que talvez fosse capaz de fazer uma banda desenhada a sério. Descobrira que o importante é saber contar uma história e que a qualidade do desenho não é determinante”. Por isso Pitanga “foi nascendo, num parto sem dor. Era preciso arranjar-lhe uma "farda" como tinham os verdadeiros heróis da BD. O cachecol às pintas e a camisola às riscas funcionavam bem a preto e branco!”. E uma estranha actividade, “porque sempre embirrei com o facto de os "heróis" terem profissões mais ou menos nobres: pilotos, jornalistas, aviadores, etc. Com Pitanga, o barbeiro a domicílio, que existia antigamente, de aldeia em aldeia na sua bicicleta, ressurge quase como uma extravagância. E ao substituir a modesta bicicleta por uma valente moto, dotava-o da mobilidade de que precisava.”
Ao longo destes anos, Pitanga andou quase desaparecido (ver caixa) “Não sou capaz de trabalhar para a gaveta. A BD não paga o trabalho que dá e, mesmo de moto, qualquer herói é ultrapassado por tarefas mais compensadoras para o seu criador...” Mas apesar do tempo decorrido as mudanças não são muitas, “Fiz os possíveis por melhorar o aspecto gráfico. A personalidade de Pitanga não muda. Algumas das raras pessoas que já leram “A rapariga do Poço da Morte”, em que ele anda às voltas com uma mafia dos transgénicos, acharam-no mais amargo. Mas mantém-se pronto para a aventura, sem perder o sentido de humor.” Quanto a novas histórias, “vontade não me falta. Gostava muito de o ver, num jornal, à maneira da velha banda desenhada popular.”

(Caixa à parte)
Bibliografia
1985 - “La Chavalita”, (Ed. Caminho, com pré-publicação em “O Diário”; “Pitanga e os animais”, (“O Mosquito”, nº 11, 5ª série, Ed. Futura)
1996 – “Parabéns a você” (Col. Quadradinho nº1, ASIBDP); “Quem vem e atravessa o rio”, com desenhos de Pedro Sousa Dias (Quadrado nº 3, 2ª série, ASIBDP)
2003 – “A Rapariga do Poço da Morte” (Ed. Caminho)

Copyright: © 2003 Jornal de Notícias; Pedro Cleto

     
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