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 Magazine Artes, 1 de Maio de 2003
Rostos para a morte
João Paulo Cotrim
Na vã tentativa de vencer a morte, há muito que usamos como única arma a criação, literária no caso. Assim fizemos dela a personagem principal das nossas histórias e assim passámos o tempo a inventar-lhe máscaras. A morte não é bonita nem feia, limita-se a ser. São os criadores que lhe desenham o que vestir, uma presença estética, gráfica, mais ou menos explícita, mais ou menos tolerável. Talvez não seja sensato procurar sentidos onde há apenas histórias, mas o sujo e árduo trabalho de leitor tem que ser feito por alguém... Um pretexto como a actualidade faz cruzar quatro álbuns onde a morte assume rostos mais ou menos violentos, mais ou menos desenhados, mais ou menos filosóficos. A física morte surge numerosas vezes em tiros de pistola, com e sem silenciador, pelo fogo, com e sem explosão, por afogamento, por contusões de vária ordem, com taco de basebol e tampa de caixote do lixo, por aperto, por asfixia e por faca, facalhão, navalha, naifa. Em geral, tais momentos são coreografados como para ballet ou ópera.
Hard Story tem o tom de um ópera bufa na qual um chulo de subúrbio se apaixona, sem querer e sem saber, pela mais nova das suas prostitutas. Matará cada cliente que experimentar aquele corpo até reconhecer o amor e fugir, pisando sangue. Ao notável trabalho de composição, com grande riqueza de perspectivas e notáveis subtilezas esculpidas nos rostos, de Jorge González (autor do cartaz do BD Fórum) responde o clássico argumentista Horacio Altuna com um off barroco, irónico e descritivo. O conjunto é brilhante de frieza e paixão.
Também no primeiro volume de O Assassino, de Jacamon e Matz, é sobejamente usado o expediente do off para dar conta dos pensamentos de um matador profissional, cuja solidão o empurra para o devaneio filosófico: «vivemos sobre uma pilha de cadáveres, mas parece que o ser humano é bom.» Neste primeiro álbum começa apenas a biografia de uma personagem sem outro nome além daquele que lhe dá a profissão, sem razão aparente que explique o que faz. Ou seja, com pouco que biografar, figura fria como mandam as convenções, mas algo atormentada: não é em vão que um assassino se permite reflectir sobre a condição humana... Uma reflexão devolve-nos sempre uma imagem. Luc Jacamon ilustra as variantes do argumento em constante, quase banal, reservando para alguns momentos a força de uma imagem singular, isto por entre alguma dureza no desenho da figura humana.
Juan Solo tem muitas razões para ser, de entre os papéis que por aqui se passeiam, a de gatilho mais fácil, uma espécie de príncipe cruel da sangria, o mais elegante bailarino que a morte podia ter como amigo. Oriundo do carismático universo mental de Jodorowsky (companheiro de Topor e Arrabal), possui uma deformação, diria, animal: uma cauda. Abandonado bebé numa lixeira de subúrbio latino-americano, foi criado por um travesti-prostituto anão e amamentado por uma cadela. Amigo, amigo só o seu velho revólver. Uma herança dramática da sua mãe (e pai) adoptiva depois de ter sido mortalmente ferida e antes de se fazer explodir no miolo de uma igreja. Bess pinta toda esta violência primordial de matriz religiosa com cores berrantes escorreita paginação, em estilo brutal, despojado e barroco, tudo a um tempo. Na medida certa para nos servir sangria, contenha ou não, além do gelo, uma mão cortada sangrando.
É uma constante, este estilo de trocadilhos visuais ou deixas afiadas manipuladas em diálogos fulgurantes como estrelas cadentes. Esse é um dos motivos para nos alegrarmos com o regresso de uma carismática personagem nacional. Pitanga, barbeiro ao domicílio, regressa para nos apresentar A Rapariga do Poço da Morte dezoito anos depois de nos ter apresentado La Chavalita, ambos nomes próprios da senhora aventura. E regressa de navalha afiada para responder a dúvidas («Sabes o que me está a bater?») com bocas («Claro que sei! É um taco de basebol!»).
Arlindo Fagundes, autor de múltiplos talentos, é cultor de uma bd popular onde a acção, a velocidade e os diálogos são os elementos essenciais de um jogo onde um tema de actualidade faz as vezes de tabuleiro. (O que pode, aliás, ser constatado em exposição na Bedeteca de Lisboa). No caso, Pitanga vê-se envolvido – sem querer, como é característico dos anti-heróis românticos – numa rede internacional de transgénicos que passa pelos arredores de Braga. Pela primeira vez, em gesto de autodefesa e raiva, Pitanga mata, perdendo alguma da sua aura romântica. Sujou as mãos.
Fagundes tem um estilo muito próximo da caricatura, algo rígido que assenta sobre o contorno e as massas de negro. Pouco mais é, afinal, do que peça no mecanismo da narrativa. O que lhe interessa é contar histórias de humanas raivas e equívocas ternuras. E de morte.
Errata: As minhas contas acerca do número de edições assinadas por Lewis Trondheim estavam erradas. Faltava «Imbróglio», n.º 5 da saudosa colecção Quadradinho, da ASIBDP, mais um pequeno e delicioso exercício a p/b sobre o crime, o suspense e, sob múltiplas formas,… a morte.
A Rapariga do poço da morte, Arlindo Fagundes, 52 pp a p/b, Caminho, 2003; Hard Story, Horacio Altuna e Jorge González, 48 pp a p/b, Vitamina BD, 2001; Juan Solo – Flho de uma arma, Bess & Jodorowsky, 60 pp a cores, Edições Asa, 2002; O Assassino – Debaixo de mira, Jacamon e Matz, 64 pp a cores, Booktree, 2002.
Copyright: © 2003 Magazine Artes, João Paulo Cotrim
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