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Diário de Notícias, 19 de Maio de 2003

'Pitanga': a segunda vida de um herói português

João Miguel Tavares

Desaparecido desde 1985, pensou-se que Pitanga teria aproveitado as facilidades fiscais para se reformar da sua profissão de «reputadíssimo barbeiro de luxo ao domicílio». Mas parece que não. Dezoito anos após a edição do álbum de estreia, La Chavalita - e, nos entretantos, apenas com aparições pontuais em revistas da especialidade -, eis que Pitanga volta a passear o seu cachecol às bolinhas pretas pelas páginas da banda desenhada portuguesa.

O novo álbum chama-se A Rapariga do Poço da Morte e ostenta orgulhosamente a ligação ao passado: no preto-e-branco, na invocação de situações e personagens do primeiro livro, na adopção de um tom ostensivamente aventureiro que era a sua grande imagem da marca. E, no entanto, é também um trabalho que reconhece o correr dos anos.

Nesse sentido, a primeira prancha é um golpe de génio de Arlindo Fagundes: a história começa no (verdadeiro) Cemitério de Fiscal, Amares, com Pitanga em frente à campa de António Variações. Variações foi a figura que inspirou Arlindo Fagundes a criar o seu herói barbeiro e tinha mesmo uma pequena aparição em La Chavalita. Depois da contemplação, a frase: «como o tempo passou, meu velho».

Passou e não passou. Porque após essa primeira prancha «o super-barbeiro volta a atacar», e nós mergulhamos outra vez num mundo antigo, onde a única coisa que parece ter mudado é a mota de Pitanga, hoje muito mais sofisticada. Tudo o resto está lá, incluindo o sentido de humor e o grande talento do autor para os pequenos diálogos e para a construção de punchlines imaginativas. Fagundes é, a par de Fernando Relvas, o grande retratista dos anos 80 na BD portuguesa, utilizando muito bem a linguagem coloquial e apreciando a composição de figuras malandras, à imagem do velho Zé Gato.

E quanto a fragilidades? Também as há, claro. A capa é muito má e o desenho, sendo mais seguro que em La Chavalita, é menos trabalhado. Mas o argumento é curioso, quase delirante - tem traficantes de milho geneticamente modificado e um pirómano budista amistoso -, e na sua fluidez é uma lição para muitos jovens autores. Aos 57 anos, Arlindo Fagundes mostra-se em forma. A navalha de Pitanga continua afiada.


A Rapariga do Poço da Morte
Autor: Arlindo Fagundes
Editora: Caminho
Preço: €6,93
Classificação: ***

Copyright: © 2003 Diário de Notícias; João Miguel Tavares

     
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