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 Diário As Beiras, 24 de Maio de 2003
Sangue negro em folha branca
João Miguel Lameiras
Num tempo em que a cor dita a lei e mesmo alguns clássicos inicialmente publicados a preto e branco, surgem agora em versões recoloridas, como aconteceu com o “Silêncio” de Comés e vem acontecendo com a obra de Hugo Pratt, sabe bem encontrar autores que escolhem o preto e branco para contar as suas histórias em BD. Histórias de crime e castigo, em que o sangue negro ensopa a folha branca.
E se, aparentemente, a opção pelo preto e branco e a temática policial, são o único ponto de contacto entre o Sin City de Frank Miller e esta aventura de Pitanga, o barbeiro ao domicílio criado por Arlindo Fagundes, mais coisas há a aproximar os dois autores, como teremos ocasião de ver.
Mas falemos primeiro de Sin City, verdadeiro clássico da BD mundial, finalmente disponível em português numa belíssima edição, depois de algumas histórias curtas na revista “Comix” terem apresentado a criação maior de Frank Miller aos leitores portugueses.
Publicada inicialmente em capítulos nas páginas da revista “Dark Horse Presents”, entre 1991 e 1992, “Sin City” representou um verdadeira revolução no mundo dos comics, ao apostar nas histórias policiais, um género moribundo numa indústria em que os super-heróis ditavam a lei, preferindo às cores consideradas indispensáveis em qualquer revista de super-heróis, um preto e branco altamente contrastado e de uma eficácia brutal.
Obra que assinala o regresso de Frank Miller à prancheta de desenhador, após dois anos passados como argumentista em Hollywood, onde trabalhou na série “Robocop”, “Sin City” estava inicialmente prevista para apenas 48 páginas, mas o prazer que Miller sentiu em desenhá-la (e que tão bem soube transmitir ao leitor) levou-o a prolongar a história por quase 200 páginas. Páginas essas que se lêem de um fôlego, graças à mestria com que o autor domina o ritmo da narrativa. E mesmo que Miller seja em geral melhor narrador do que desenhador, a verdade é que em “Sin City” se consegue superar, graças a uma assombrosa técnica de preto e branco, onde tal como Hugo Pratt no seu melhor, consegue reduzir a imagem ao essencial sem que ela perca capacidade narrativa. Isso é feito graças a um claro-escuro sem degradées, em que as sombras ganham vida, numa magnífica fusão dos clássicos americanos do preto e branco, como Will Eisner e Milton Caniff, com o expressionismo gráfico presente em autores que souberam transcender essa herança, como Alberto Breccia e José Muñoz.
Tal como Frank Miller, que lhe dedicou um episódio de “Sin City”, também Arlindo Fagundes tem Hugo Pratt como referência. E, embora mitigada em termos gráficos, essa referência continua presente em “A Rapariga do Poço da Morte”, álbum que assinala o regresso ao activo de um dos mais carismáticos heróis da BD portuguesa, numa movimentada história de acção, cheia de tiros, teorias da conspiração, alimentos trangénicos, um incendiário budista, mulheres fatais e um poço da morte, com a respectiva rapariga. Rapariga essa que se descobre ser uma velha conhecida do herói e dos leitores, num golpe de teatro que cai um bocado de pára-quedas no meio de uma história bem contada, em que o sangue continua a correr negro sobre a folha branca, e que, se não fosse passada no norte de Portugal, poderia pertencer a um episódio dos “Ficheiros Secretos”.
António Variações, o carismático músico a quem “La Chavalita”, a primeira aventura de Pitanga é dedicada, dizia que a sua música estava algures entre “Bragança e Nova Iorque”. O mesmo se pode dizer da BD (“o cinema dos pobres”, nas palavras do autor) de Arlindo Fagundes, que soube transpor para os cenários nacionais um género tradicionalmente americano, adaptando-o à nossa realidade, em histórias movimentadas, servidas por um desenho funcional, em que a excelente técnica narrativa disfarça as debilidades do traço.
E, mesmo que o preto e branco prattiano de “La Chavalita” tenha dado lugar a um traço mais limpo, quase “linha clara”, Fagundes continua a escrever os melhores diálogos da BD portuguesa, dotados de uma ironia tão certeira como a navalha de Pitanga. Agora resta esperar que, tal como o público dos comics vai descobrir fascinado a magia das sombras de Frank Miller em “Sin City”, também os leitores da série “Uma Aventura”, que Arlindo Fagundes ilustra, possam descobrir o trabalho em BD daquele desenhador cujo traço tão bem conhecem.
“Sin City: A Cidade do Pecado”, de Frank Miller, Devir, 196 pags, 9.99 €
“A Rapariga do Poço da Morte”, de Arlindo Fagundes, Caminho, 56 pags, 6.93€
Copyright: © 2003 Diário As Beiras; João Miguel Lameiras
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